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Vacina de spray nasal ainda em teste é dissemelhante de remédio defendido por Bolsonaro

Por redação

Enganoso: É enganoso o post que relaciona uma reportagem de 2021 do UOL sobre ineficácia de spray nasal defendido por Jair Bolsonaro (PL) contra a covid-19 e outra do programa Fantástico, de junho de 2022, afirmando que, segundo especialistas, uma vacina de spray nasal “é o caminho” para o término da pandemia. Além de ainda não ter comprovação contra o coronavírus, o medicamento citado pelo presidente não era um imunizante.

Teor investigado: Post unindo títulos de duas reportagens para declarar, erroneamente, que Bolsonaro estava claro sobre aposta em remédio nasal contra o coronavírus. A primeira chamada, publicada pelo UOL em março de 2021, diz: “Com spray, Bolsonaro insiste em medicamento sem eficiência contra covid-19”. A segunda, que foi ao ar no programa “Fantástico”, da Mundo, em 5 de junho de 2022, informa: “Vacina de spray nasal é o caminho para o término da pandemia de covid, apontam especialistas”.

Onde foi publicado: Facebook, Twitter e WhatsApp.

Desfecho do Comprova: É enganoso post que usa a hashtag #Bolsonarotemrazão ao confrontar uma reportagem do UOL, de março de 2021, com outra do Fantástico, de junho de 2022. A primeira informa que o spray nasal, aposta do presidente Jair Bolsonaro, não tem eficiência comprovada contra a covid-19. A do programa dominical da Mundo afirma que especialistas apontam vacina de spray nasal porquê “caminho” para o término da pandemia. A relação, porém, não pode ser feita, porque se tratam de medicamentos diferentes.

O que o presidente defendia é um remédio em desenvolvimento em Israel para tratar pessoas já infectadas pelo coronavírus; já o citado na reportagem do Fantástico é um imunizante.

Sobre o spray que trata a doença, o EXO-CD24, Nadir Arber, um dos cientistas que participa das pesquisas, disse ao Comprova que ainda não há resultados que comprovem sua eficiência – exatamente porquê informa a reportagem do UOL usada no teor enganoso.

Enganoso, para o Comprova, é o teor retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma versão dissemelhante da intenção de seu responsável; teor que confunde, com ou sem a intenção deliberada de suscitar dano.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos de maior alcance nas redes sociais. O post da deputada federalista Carla Zambelli (PL-SP) no Facebook recebeu 2,5 milénio comentários e foi compartilhado mais de 15 milénio vezes até 8 de junho. Outros políticos divulgaram as mesmas alegações em seus perfis do Facebook depois a postagem da parlamentar. Até a mesma data, a publicação do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tinha 3,3 milénio compartilhamentos e 966 comentários. Já o teor propagado pela deputada federalista Bia Kicis (PL-DF) teve 3,3 milénio compartilhamentos e 496 comentários.

O que diz o responsável da publicação: O Comprova entrou em contato com Carla Zambelli, Bia Kicis e Flávio Bolsonaro para esclarecer questões referentes às postagens enganosas. Em resposta, Zambelli questionou o trabalho do Comprova, disse que as duas substâncias são parecidas por serem sprays nasais e afirmou que não teceu “qualquer opinião sobre a eficiência do imunizante proposto”. Os outros políticos não responderam.

Porquê verificamos: Com a instrumento TweetDeck, foi provável encontrar as primeiras postagens de Bolsonaro relacionadas ao spray nasal. A equipe também buscou as reportagens cujos títulos são citados na peça de desinformação e outras relacionadas ao spray contra a covid.

A partir de reportagem da Folha de S.Paulo sobre o spray que citava o Clinical Trials, site que reúne informações sobre testes de medicamentos, o Comprova buscou o estudo relacionado ao EXO-CD24 e os nomes dos responsáveis. Via pesquisa no Google, foi provável encontrar seus e-mails e contatá-los. Quem respondeu o contato foi Nadir Arber, professor de medicina e gastroenterologia e diretor do Núcleo Integrado de Prevenção do Cancro do Núcleo Médico Sourasky – Hospital Ichilov, em Tel Aviv, em Israel.

Também foram entrevistados Renato Kfouri, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), e a professora Anamélia Lorenzetti Bocca, coordenadora do Laboratório de Imunologia Celular no Instituto de Biologia da Universidade de Brasília (UnB).

Primeiras menções

Bolsonaro começou a falar sobre um spray nasal contra a covid-19, de pacto com a Folha, em fevereiro de 2021, depois o jornal israelense Times of Israel publicar que o remédio EXO-CD24 havia curado 29 dos 30 casos moderados a graves de covid-19.

Em 12 de fevereiro de 2021, em seu Twitter, o presidente afirmava ter conversado com o logo primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, sobre o medicamento, que vinha “obtendo grande sucesso no tratamento” da doença em casos graves, porquê ele escreveu. Três dias depois, ele publicou que “brevemente” enviaria o pedido de estudo para seu uso emergencial à Anvisa, mostrando interesse em comprá-lo.

Tapume de um mês depois, de pacto com a reportagem do UOL, dos quais título é usado na peça de desinformação, Bolsonaro defendeu o remédio insistindo em outra aposta sem eficiência comprovada, a hidroxicloroquina. “Você tem um pai, irmão ou colega que está ali: Olha, vai ser intubado. Você vai dar um spray no nariz dele ou não? Ou vai tratar isso porquê uma hidroxicloroquina, porque também não tem comprovação científica?”, questionou em live no Facebook.

Em março de 2021, o governo federalista enviou uma comitiva de dez pessoas a Israel para saber o spray nasal. A viagem, que custou ao menos R$ 100 milénio, segundo a Folha –, não resultou em nenhum contrato.

Mas, diferentemente do que o presidente disse e do que o teor investigado cá leva a crer, o EXO-CD24 é um medicamento que estava em teste para ser usado em pessoas infectadas pelo vírus, não um imunizante.

A vacina citada no post enganoso, inclusive, ainda nem está disponível. Porquê informa o Fantástico na reportagem dos quais título é usado no teor verificado cá, “grupos pelo mundo estão na procura de uma vacina que ataque o vírus logo de rostro, que não deixe que ele se multiplique” – o que seria feito via nasal. Ainda de pacto com a atração da Mundo, desta forma “a pessoa vacinada não se contamina, e nem dá tempo de transmitir o vírus” e o micróbio finalmente para de circundar e a pandemia pode chegar ao término”.

Remédio israelense

O uso original do EXO-CD24 é para tratamento de cancro de ovário, conforme material da Folha.

Quando Bolsonaro começou a falar sobre o spray, ele estava em temporada inicial de testes clínicos e não tinha dados publicados, ainda de pacto com a Folha. Entre 35 pesquisas em humanos com drogas via nasal que havia na idade, a do EXO-CD24 era uma das mais incipientes.

Nota técnica do Ministério da Saúde de fevereiro de 2021 concluía que a droga “aponta para uma melhora clínica importante dos pacientes hospitalizados com covid-19 moderada a grave”, mas que “os resultados ainda não foram publicados e as informações disponíveis não oferecem dados suficientes sobre os desfechos de segurança e eficiência obtidos e as características dos pacientes incluídos”.

Já nota da mesma idade do Observatório de Tecnologias Relacionadas ao Covid-19, do Instituto Vernáculo da Propriedade Industrial, usa trechos da reportagem do jornal Times of Israel para descrever o EXO-CD24. O texto afirma que “o medicamento combate a tempestade de citocinas, que se acredita ser responsável por muitas das mortes associadas à doença” e que “ele usa exossomos – pequenos sacos transportadores que transportam materiais entre as células – para entregar uma proteína chamada CD24 aos pulmões, que o grupo de estudo (do Núcleo Médico Ichilov de Tel Aviv) está pesquisando há décadas”.

Ainda de pacto com a nota, “essa proteína ajuda a acalmar o sistema imunológico e sofrear a tempestade” e, por ser dirigido localmente no nariz, não tem efeitos colaterais, “ao contrário de outras fórmulas, (o spray é) direcionado diretamente para os pulmões”.

Ao Comprova, o professor Nadir Arber, um dos responsáveis pela pesquisa do EXO-CD24 contra o coronavírus, contou que ainda não há resultados do teste médico com a metodologia de estudo duplo-cego, quando o voluntário não sabe se está tomando remédio ou placebo, substância sem efeito no corpo. “A última temporada da pesquisa está sendo realizada, mas, atualmente, não há pacientes com covid, logo, planejamos ter outros dois estudos”, disse ele.

Questionado se o medicamento é eficiente contra a covid, ele respondeu que “parece ser muito eficiente; no entanto, zero pode ser reivindicado até o compararmos com o placebo.”

Vacinas por via intranasal

Anamélia Lorenzetti Bocca, professora de Imunologia Celular na UnB, explica que as vacinas contra o coronavírus podem ser administradas por vias variadas, gerando diferentes respostas imunológicas. A forma de emprego também pode mudar, podendo ser formuladas por partículas em uma solução ou uma preparação que adere na mucosa do nariz e passa para os outros tecidos do corpo.

A observador considera que os imunizantes aplicados no nariz são importantes para uma resposta mais robusta localmente, com o aumento de anticorpos, assim porquê as vacinas por via intramuscular, e a geração dos linfócitos T e B, que são células de memória imunitária.

De pacto com Bocca, a vacina intranasal possui uma resposta mais robusta na mucosa nasal, com produção de anticorpos e células de memória nos linfonodos ao volta da mucosa nasal. Já a vacina intramuscular faz uma resposta mais sistêmica, com produção de anticorpos na mucosa nasal, mas em outras mucosas também, e a geração de células de memória em outros tecidos. Para ela, a utilização de uma ou outra depende do tipo de resposta imune que se pretende para o tipo.

Sobre a vacina produzida pelo Dr. Jorge Kalil, citada na material do Fantástico, a profissional afirma se tratar de uma proteção profilática, usada na prevenção da doença. “Seria mais uma vacina disponível com a possibilidade de apresentar uma resposta mais robusta na via de ingresso do vírus, o que impediria a sua disseminação para outros tecidos”, declara.

“A vacina intranasal de tecnologia pátrio não tem qualquer relação com a EXO-CD24 porque uma induz uma resposta imune protetora e a outra trata um sintoma da doença. A atual do Brasil (vacina intranasal) está pronta para iniciar os ensaios clínicos de temporada I, aguardando autorização da Anvisa para tal. Ainda não tem parceria com indústrias farmacêuticas para o seu escalonamento. O investimento no Brasil é muito plebeu para esta lanço”, esclarece Anamélia Lorenzetti Bocca.

Renato Kfouri, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), fala que o desenvolvimento desse tipo de vacina é muito procurado para combater os vírus que têm ingresso pelas vias respiratórias. Para ele, entretanto, é um caminho mais difícil já que o dispêndio financeiro e tecnológico é maior, demandando laboratórios de biossegurança maiores.

“Até agora, a gente só conseguiu a gripe, que não existe cá no Brasil, mas muitos países têm a vacina de gripe nasal com vírus influenza vivo, mas enfraquecido”, diz o imunologista.

O diretor da SBIm não acredita que tenhamos essa forma de imunizante em um período de limitado prazo. Apesar disso, considera necessário gerar vacinas mais modernas que sejam mais eficazes na prevenção de formas leves da doença e que sejam voltadas para as novas formas do coronavírus. Segundo relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS), atualmente existem 361 vacinas em teste contra a covid (163 em estágio médico e 198 em estágio não-clínico). Do totalidade, há oito imunizantes intranasais sendo desenvolvidos.

Por que investigamos: O Comprova verifica conteúdos suspeitos que tenham viralizado nas redes sociais ou aplicativos de mensagem sobre a pandemia, eleições e políticas públicas do governo federalista. Bolsonaro vem desacreditando as vacinas e defendendo medicamentos sem eficiência comprovada, porquê o spray nasal, desde o início da pandemia, e conteúdos que fazem o mesmo colocam a saúde da população em risco.

Outras checagens sobre o tema: A Covid-19 dominou a quarta temporada do Projeto Comprova, encerrada em dezembro de 2021. Mais de centena conteúdos foram verificados, sobretudo os relacionados a vacinas e tratamentos sem eficiência comprovada contra a doença. Em junho do ano pretérito, por exemplo, o Comprova mostrou ser enganoso teor que comparava spray nasal patenteado com tratamento precoce. Ainda sobre a covid, a equipe publicou, mais recentemente, ser falso que imunizantes de mRNA são terapia genética e causam a doença e que era enganoso que estudo feito em Itajaí prova eficiência de ivermectina.

Investigado por Metrópoles e Folha de S.Paulo. Verificado por CNN Brasil, A Jornal, Estadão, O DIA, PLURAL Curitiba, NEXO, SBT e SBT News.

CNN Brasil

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