Publicação que atribui a ex-tesoureiro do PT áudio contra igrejas é montagem

Por redação

Falso: É falso um vídeo que manipula uma transmissão do programa Cidade Alerta Sergipe, da TV Atalaia, de forma a inserir o áudio de um varão afirmando que a esquerda tem que combater as igrejas. A fala é atribuída ao ex-tesoureiro do PT e ex-deputado federalista Paulo Ferreira (PT-RS), mas a voz não se assemelha à do político, e o áudio não fez secção da edição original do programa.

Teor investigadoVídeo no TikTok traz o trecho de uma transmissão do programa Cidade Alerta Sergipe, em que o apresentador divulga áudio atribuído ao ex-tesoureiro do PT Paulo Ferreira. Na gravação, uma voz incentiva que a esquerda ataque igrejas, apoiadoras de Bolsonaro, em resguardo do ex-presidente e pré-candidato à presidência da República Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Sobre as imagens, estão as legendas “olha o demônio agindo novamente” e “eles estão falando em combater as igrejas!!! as autoridades tem que fazer alguma coisa (sic)”.

Onde foi publicado: TikTok

Epílogo do Comprova: É uma montagem o vídeo que une trecho do programa Cidade Alerta Sergipe a um áudio de origem desconhecida incentivando movimentos da esquerda a combater igrejas em resguardo de Lula.

O vídeo traz uma foto do ex-tesoureiro do PT e ex-deputado federalista Paulo Ferreira, insinuando que a fala seria do petista. O Comprova localizou a transmissão original da emissora e identificou que o teor foi adulterado; o áudio não foi exibido no programa.

Ou por outra, a voz no áudio não condiz com a de Ferreira, com quem a reportagem conversou por telefone. Os áudios foram anexados nesta verificação.

Falso, para o Comprova, é o teor que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma falsidade.

Alcance da publicação: O Comprova investiga conteúdos suspeitos de grande alcance nas redes sociais. A publicação cá verificada foi feita em 10 de fevereiro deste ano e alcançou mais de 40 milénio compartilhamentos no TikTok até o dia 11 de maio.

O que diz o responsável da publicação: O Comprova solicitou via observação no TikTok uma forma de contato com o responsável da publicação, mas não houve resposta.

Porquê verificamos: A partir de buscas no Google, foi verosímil identificar que o mesmo teor já havia circulado anteriormente e foi objeto de verificação de outros veículos, uma vez que Aos FatosEstadão e Boatos.org. A partir dessas publicações, o Comprova localizou o vídeo original da TV Atalaia, possibilitando identificar o trecho da postagem cá verificada.

Ao utilizar o mecanismo de procura de imagens reversas TinEye, a reportagem confirmou que a foto usada na montagem retrata o ex-tesoureiro do PT e ex-deputado federalista Paulo Ferreira. A imagem é exibida em matérias de diferentes veículos nos últimos anos. O Comprova entrevistou o ex-tesoureiro e procurou o diretório do PT no Rio Grande do Sul, a TV Atalaia e o responsável da publicação. Os dois últimos não responderam.

Vídeo original foi modificado

O teor cá verificado foi manipulado a partir de uma reportagem postada no perfil da TV Atalaia no YouTube, em agosto de 2016. Nas imagens, Gilmar Roble, ex-apresentador do programa Cidade Alerta Sergipe, labareda atenção dos espectadores para um áudio de um presidiário revoltado com o homicídio de uma mulher. As roupas, fala e movimentos do apresentador são os mesmos, o que atesta que houve edição e manipulação do material original.

O teor adulterado utiliza unicamente o início da reportagem original. Em seguida, um galanteio leva a uma tela com o padrão gráfico da emissora para a exibição de áudios. Neste momento, o áudio original é substituído por outra gravação. Há, ainda, a inserção da foto de Paulo Ferreira na tela.

Além da substituição, a voz da gravação é dissemelhante da do ex-tesoureiro do PT; isso pode ser observado ao se confrontar secção do áudio com trecho de entrevista concedida por Paulo Ferreira ao Comprova no dia 10 de maio de 2022.  você pode ouvir a íntegra da entrevista.

Paulo Ferreira e PT negam fala

Questionado pelo Comprova, Paulo Ferreira negou que seja a sua voz no áudio com ataques a igrejas. “A voz não é minha, a minha voz é propriedade, eu tenho um potente sotaque regional, o sotaque regional da voz é completamente dissemelhante da minha. Logo foi uma colagem, não sei se dá pra falar assim, que eles fizeram em cima de uma foto e um texto que eles inventaram”, afirma.

Ou por outra, declarou que a fala não condiz com a opinião dele. “Nunca, em qualquer momento da minha trajetória política, eu expressei esse noção que a gravação acaba emitindo, de ataque às religiões. (…) Não é a minha voz, nem é o teor que eu expresso e nem a minha opinião sobre o tema. Não tem teor que se aproxime daquilo que eu penso”.

Paulo Ferreira diz que chegou a consultar se o material de trajo havia sido veiculado pela emissora do Sergipe e a consultar advogados em seguida identificar que se tratava de desinformação. “Mas tem uma dificuldade muito grande pra buscar a origem (…) Você não sabe onde foi feito, quem fez, só sabe que está na rede. Há uma dificuldade de identificação da origem da fraude, digamos assim, ou da fake news. Isso é uma propriedade da informação em rede contemporânea. A gente acaba sofrendo, não só eu, mas muita gente”, observa.

O diretório do PT no Rio Grande do Sul, estado pelo qual Paulo Ferreira foi deputado federalista, também foi procurado pelo Comprova e emitiu nota afirmando que o vídeo é uma manipulação que associa uma voz desconhecida à imagem do ex-deputado, constituindo-se uma vez que “mais uma armação uma vez que tantas outras forjadas contra o PT, seus dirigentes e principalmente contra a sua militância”.

Sobre o teor do áudio inserido na montagem, o PT-RS afirmou que a violência religiosa é uma prática combatida diariamente pelo partido, assim uma vez que a disseminação de desinformação: “O Diretório Estadual do Partido dos Trabalhadores e das Trabalhadoras do Rio Grande do Sul repudia veementemente o uso de notícias falsas, manipulações de áudios e de imagens”.

Quem é Paulo Ferreira

Paulo Adalberto Alves Ferreira é ex-deputado federalista e ex-tesoureiro do PT, tendo assumido o missão em 2005. Em 2016, teve a prisão preventiva decretada na Operação Dispêndio Brasil, indiciado de envolvimento em um esquema de fraudes em contratos do portanto Ministério do Planejamento.

No mesmo ano, quando custodiado, outra prisão preventiva foi decretada contra ele na Operação Eversão, no contexto da Lava-Jato. Ele virou réu no processo que apurou supostas irregularidades nas obras do Núcleo de Pesquisas e Desenvolvimento (Cenpes), da Petrobras.

Em 2017, Moro autorizou a soltura do político gaúcho mediante pagamento de fiança, e o condenou em primeira instância. Em 2020, o Tribunal Regional Federalista da 4ª Região (TRF4) o absolveu pelos crimes de lavagem de numerário e associação criminosa ao considerar não ter provas de participação na denúncia.

Por que investigamos: O Comprova investiga conteúdos suspeitos que viralizaram nas redes sociais sobre a pandemia de covid-19, políticas públicas do governo federalista e eleições presidenciais. O vídeo falso atribui a um membro do PT áudio com potencial de prejudicar a isenta avaliação de eleitores em relação à candidatura de Lula nas eleições de 2022.

Comentários na postagem demonstram que usuários da rede social acreditam na verdade do teor. Uma usuária, por exemplo, afirma “eu era Lula até 1 segundo detrás agora tô repensando”, enquanto outro critica o áudio, escrevendo “uma vez que que esses rosto quer mecher com Deus? com Deus ninguém se brinca camarada (sic)”.

Conteúdos desta natureza podem induzir a interpretações equivocadas da verdade e influenciar eleitores no momento da votação.

Outras checagens sobre o tema: O mesmo teor já foi checado anteriormente por Aos Fatos e Estadão, em fevereiro deste ano, e por Boatos.org, em março de 2021. O Comprova já verificou outras postagens com desinformação envolvendo pré-candidatos à presidência, identificando uma vez que fora de contexto vídeo no TikTok em que Lula labareda colaborador da Petrobras de corrupto, que um protesto de indígenas na Bahia era por melhoria na instrução e não por verba para ato contra Bolsonaro e que vídeos antigos são usados para enganar sobre adesão a atos pró-Bolsonaro em 1º de Maio.

Investigado por Correio de Carajás e O Dia. Verificado por Estadão, Band News FM, Poder 360, Metrópoles, Plural Curitiba, imirante.com, SBT, SBT News e Nexo.

CNN Brasil

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