Efeito de subida de juros nos EUA para o Brasil são limitados, dizem especialistas

Por redação

O Brasil deve ser prejudicado pelo novo ciclo de subida de juros nos Estados Unidos, mas com efeitos limitados, segundo especialistas consultados pelo CNN Brasil Business. O ciclo começou em março deste ano, e ganhou um novo capítulo na quarta-feira (4).

O Federalista Reserve, banco medial da maior economia do mundo, anunciou um aumento de 0,5 ponto percentual na taxa de juros, que agora está no pausa entre 0,75% e 1% ao ano. Foi a maior subida em mais de 22 anos, e ocorreu enquanto o país enfrenta o maior nível de inflação em mais de quatro décadas.

Devido ao tamanho da economia do país, qualquer mudança na política monetária norte-americana afeta as economias ao volta do mundo, e o Brasil não é exceção. Quando os juros sobem, a tendência é de saída de investimentos de países emergentes, com os investidores buscando a segurança e rentabilidade dos Estados Unidos.

Entretanto, especialistas apontam que o Brasil pode não ser tão prejudicado pelo movimento uma vez que outros mercados, e que ainda está em uma posição atrativa, apesar do cenário ser incerto devido às eleições neste ano.

Próximos passos do Fed

No mesmo dia em que o Fed aumentou os juros, o presidente da autonomia, Jerome Powell, afirmou que o banco medial já vê uma vez que prováveis ao menos dois novos aumentos de 0,5 p.p. nas próximas reuniões.

Por outro lado, disse que os dirigentes do Fed descartam no momento uma subida de 0,75 p.p., esperada por segmento do mercado devido ao intensidade da disseminação inflacionária, e também afastou riscos de uma recessão no país, vista uma vez que provável por alguns segmentos.

Para Alexandre Espírito Santo, economista-chefe da Órama, os movimentos de agora refletem um erro na postura do Fed, que considerou que a inflação surgida durante a pandemia seria transitória, e portanto não demandaria altas de juros.

“Não era só uma questão de inflação pela desestrutura na produção pela pandemia. O Fed, BCs e governos na pandemia começaram a exprimir numerário, cresceu a base monetária em mais de 30%, e isso gera uma expansão da demanda, inflação”, diz.

A visão da autonomia de que a inflação seria somente de oferta, porém, fez com que o Fed ficasse detrás no combate a ela, e agora passou a ser necessário açodar o aperto monetário.

No cenário atual, Espírito Santo vê o banco medial “refém” do mercado, que vem subindo as curvas de juros futuros do país, obrigando as elevações das taxas.

O Fed deveria ir com uma subida de 0,75 p.p. pelo andejar da carruagem, mas disse que não vai fazer. Isso culpa uma sensação no mercado de que o Fed não sabe efetivamente qual é o próximo passo, porque alguns dirigentes acreditam nessa subida maior

Alexandre Espírito Santo, economista-chefe da Órama

 

O economista espera que a próxima reunião tenha uma subida de 0,5 p.p. e que, com mais dados sobre a inflação, os dirigentes sinalizem uma novidade elevação nessa magnitude ou deixem em acessível a possibilidade de aumentos maiores, contradizendo o que foi dito por Powell no dia 4, ou até menores, de 0,25 p.p.

“O mercado precisava de um aumento gradual, para dar tempo dele reagir, mas não tem uma vez que porque o Fed não consegue mais ir vagarosamente, demorou para perceber o problema com que estava lidando”, afirma.

“Se o Fed açodar para 0,75 p.p., o mercado pode entrar em pânico pela reversão de oração, e isso seria muito ruim. Ele deve dar outra subida de 0,5 p.p., dar tempo do mercado repercutir”.

Por outro lado, Espírito Santo considera que o detalhamento do processo de redução do balanço da autonomia, hoje em US$ 9 trilhões, veio dentro do esperado pelo mercado, mas é importante ver uma vez que os investidores reagirão à redução de liquidez, ou seja, de numerário circulando na economia conforme o Fed deixa de comprar títulos.

“Se o mercado iniciar a colocar os bancos centrais contra a parede, é muito ruim, vai fomentar um pânico, quedas fortes nas bolsas, e isso não é bom. Em tese, as bolsas dos EUA estão muito além do que deveriam estar, estão relativamente caras, se sobe juros, tira atratividade, e se elas desmoronarem, gera crise global”.

André Perfeito, economista-chefe da Necton, também vê uma subida de 0,5 p.p. uma vez que mais provável na próxima reunião. “Se uma subida de 0,5 p.p. já causou essa reação nos mercados, uma de 0,75 p.p. poderia ser ainda mais problemática”, avalia.

Ele considera que os juros no país já terão uma subida relevante ao término do ciclo atual, podendo chegar até a 6%, e o esforço do Fed agora é tentar manter os mercados calmos, apesar do nervosismo quanto aos possíveis efeitos desse processo.

Para o economista, o problema é que o mercado “tomou uma posição montada em inflação”, ou seja, acredita que o processo inflacionário é pior do que o Fed avalia, e que portanto errará no tamanho das altas de juros.

O quadro acaba gerando “muita pressão” sobre a autonomia, e Perfeito afirma que será necessário uma firmeza por segmento dos seus dirigentes, evitando mudanças de opinião que enfraqueçam ainda mais a posição do banco medial e reforcem os temores no mercado, jogando as bolsas para reles e o dólar para cima.

Efeitos no Brasil

O economista da Necton afirma que é preciso tomar zelo ao prever que as altas de juros devem piorar o desempenho da bolsa de valores no Brasil porque elas, em universal, já eram esperadas.

“As bolsas dos Estados Unidos podem tombar mais, mas vejo excesso no Brasil porque a bolsa já está em um patamar muito reles”, diz, citando o desempenho ruim em 2021.

A tendência, segundo ele, é de 2022 ter um “dólar esticado e uma bolsa sofrendo mais, mas mais por um pânico do mercado, que está comprando essa teoria de piora da inflação”.

O quadro de pessimismo global, bravo em outros fatores além dos juros dos Estados Unidos, uma vez que os lockdowns na China e a guerra na Ucrânia, já fizeram o Ibovespa repor quase todos os ganhos em reais de 2022, enquanto o real segue valorizado, mas novamente na mansão dos R$ 5.

Perfeito afirma que as condições que geraram a grande atratividade do mercado brasílio no primeiro trimestre – subida recorde nos preços de commodities e taxa de juros muito subida na confrontação mundial – não devem se repetir na mesma intensidade no resto do ano, gerando uma atratividade menor.

“Mas o Brasil reúne algumas características que conspiram para uma bolsa mais possante. O Banco Mediano está avante do resto do mundo, já fez ajustes e pode trinchar os juros antes dos outros. Tem espaço, o Brasil pode melhorar”, avalia.

O principal empecilho para essa melhora, porém, são as eleições presidenciais. Perfeito espera um nível de estresse grande, com risco de instabilidade institucional e muitos ruídos, o que pode estressar o real em relação ao dólar.

Mesmo assim, “oferecido que a bolsa está descontada, o diferencial de juros, e que a gente produz commodities, o dólar não deve chegar a R$ 6. Temos elementos favoráveis, e outros emergentes estão tão ruins quanto. O Brasil não parece tão ruim em termos relativos, mas pode piorar”.

Outro fator positivo nesse sentido são os próprios juros elevados, que, por mais que desacelerem a economia, ajudam a atrair investimentos estrangeiros.

Alexandre Espírito Santo ressalta que a bolsa brasileira devolveu os ganhos de 2022 em real, mas, considerando a variação em dólar, ela continua com subida. Os possíveis efeitos do que ocorrerá nos Estados Unidos para o Brasil dependem, na visão dele, de três cenários.

O primeiro, mais positivo, envolveria o Fed conseguir retomar as rédeas da luta contra a inflação e contê-la sem aumentos excessivos de juros. O segundo traria uma estagflação nos Estados Unidos, combinando inflação subida e incremento reles. Já o terceiro, e pior, envolveria a urgência de um freio “brusco demais” para combater a inflação, levando a uma recessão.

“Esses cenários indicam o que ocorrerá com a economia global em 2022 e 2023. A sensação atual é de que os próximos 60 dias serão cruciais para ter uma noção melhor, e não podemos olvidar da guerra e da pandemia, os efeitos que ainda podem ter”, diz.

A aposta do economista da Órama é em um cenário de reles incremento e queda lenta na inflação, mas sem descartar uma verosímil estagflação. Qualquer desaceleração na economia norte-americana, porém, afeta todo o mundo, em próprio grandes exportadores uma vez que o Brasil, cuja combinação de cenário interno e extrínseco pesa nas projeções de reles incremento em 2022.

Ele avalia que as eleições deverão ser “o grande problema” do país no ano, e que uma combinação do cenário extrínseco com estresses eleitorais pode fazer o dólar subir mais. Atualmente, porém, a Órama projeta que a moeda norte-americana terminará 2022 entre R$ 5 e R$ 5,10.

Caso o pleito não traga grandes surpresas negativas, Espírito Santo diz que é verosímil que o Brasil retome segmento da atratividade do início do ano, ajudado pelos problemas maiores em outros países emergentes, uma vez que China e Rússia.

“Se não tivermos recessão nos Estados Unidos e a eleição não trouxer surpresas desagradáveis, aí sim o país volta a ser atrativo. A bolsa ainda está muito barata, tem empresas muito sólidas, com resultados bons, pode voltar a subir”, diz.

Mesmo que o dólar sofra novas altas, ele avalia que o impacto sobre a inflação tende a ser menor que em 2021, a menos que a elevação ocorra muito rapidamente, o que ele considera pouco provável hoje.

“Ainda não vimos os efeitos da queda do dólar na inflação, e agora que a atividade começa a querer restabelecer, não deve ter aumento de preços só pela subida do dólar, os empresários vão segurar o repasse. No pequeno prazo, isso não deve afetar a inflação”, afirma.

CNN Brasil

Compartilhe este conteúdo

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on whatsapp

Veja também