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‘Sobrevivi aos nazistas graças a Trem Perdido’

Mirjam Lapid-Andriesse tinha 10 anos quando foi tirada de sua casa na cidade holandesa de Utrecht e colocada em um “gueto” de Amsterdã com sua família, em abril de 1943.

Quando criança, ela não sabia da gravidade do que se desdobrava ao seu redor.

Mais de 100 mil judeus de cidades e vilarejos em toda a Holanda estavam sendo reunidos para serem deportados, principalmente para campos de extermínio em Auschwitz e Sobibor, ambos na Polônia.

As vítimas incluíam milhares de crianças. Apenas 5 mil pessoas sobreviveram.

“Eu era uma garotinha durante a guerra, então minhas lembranças são lembranças infantis, não políticas”, ela diz à BBC.

“Eu era a mais nova de quatro filhos, dois meninos e duas meninas. Lembro-me de que fomos levados do gueto de trem para o campo (intermediário) de Westerbork em junho de 1943.”

Mirjam (no centro, no primeiro plano) e sua família

Mirjam (no centro, no primeiro plano) e sua família são parte de milhares de judeus holandeses deportados

Mirjam, agora com 86 anos, contou sua história no dia em que a companhia ferroviária estatal holandesa NS – Nederlandse Spoorwegen – começou a aceitar inscrições no programa de compensação que criou por ter ajudado ocupantes nazistas a transportar famílias judias para campos de concentração e extermínio.

Infância roubada

Agora morando em Israel, Mirjam relembra suas memórias da vida em Utrecht, no gueto de Amsterdã e no campo de Westerbork.

“No começo, isso afetava mais os adultos, mas nos afetava também”, diz ela.

“Não podíamos ir à piscina ou ao cinema, tínhamos que entregar nossas bicicletas e não podíamos ir a escolas públicas – então, na verdade, perdi três anos de escolaridade.”

Mirjam

Mirjam, hoje aos 86, diz que celebra o dia em que sua família foi liberada como um segundo aniversário

Apesar disso, ela considera a história de sua família muito feliz, em comparação com os outros.

“Dos seis de nós, cinco sobreviveram. Apenas nosso pai morreu – então tivemos sorte.”

O pai de Mirjam, Herman, morreu de severa desnutrição e exaustão em 24 de fevereiro de 1945, apenas seis semanas antes de sua família ser libertada.

O Trem Perdido

Nos dias que antecederam o fim da guerra, os nazistas começaram a destruir as provas materiais dos campos de concentração – incluindo os campos em si e documentos – e a transportar prisioneiros para outros locais na Alemanha.

Foi nessa época, em 1945, quando Mirjam viajava cruzando a Alemanha em um dos três trens que partiam do campo em Bergen-Belsen, que ela foi libertada.

Mulheres são transportadas em caminhões de gado para os campos de concentração nazistas no início dos anos 1940

Mulheres são transportadas em caminhões de gado para os campos de concentração nazistas no início dos anos 1940

“Nosso trem ficou conhecido como o Trem Perdido”, diz ela. Ele ganhou esse apelido porque, destinado a viajar para Theresienstadt – no que é hoje a República Tcheca – foi forçado a redirecionar sua rota devido a um bombardeio, e acabou parando na pequena aldeia alemã de Tröbitz.

Muitas das pessoas a bordo morreram em trânsito devido a desnutrição e doenças.

“Eu comemorei meu 12º aniversário no trem, em 17 de abril de 1945”, diz ela.

Mulheres preparam comida no campo de Bergen-Belsen, no norte da Alemanha, por volta de 1940

Mulheres preparam comida no campo de Bergen-Belsen, no norte da Alemanha, por volta de 1940

“Desde então celebro um ‘segundo aniversário’ em 23 de abril – o dia em que fomos libertados pelo Exército russo em Tröbitz, onde ficamos dois meses detidos. Depois voltamos para a Holanda. Eu tenho, até hoje, contato com uma família lá”, acrescenta ela.

A indenização é suficiente?

O envolvimento da empresa ferroviária holandesa NS na assistência aos nazistas nos anos 1940 teve um impacto direto sobre Mirjam e sua família, mas ela não os culpou pelo que aconteceu.

“Lembre-se de que foram os nazistas que pagaram pelo uso das ferrovias holandesas – mas a empresa não teve escolha. Eu não acho que eles poderiam ter dito não, eu não posso culpá-los por isso.”

E quanto à compensação que agora está sendo disponibilizada às vítimas, isso fará diferença? É suficiente?

Mirjam (de casaco vermelho) com a família, que ela quer levar para a cidade alemã de Tröbitz, onde ela foi libertada

Mirjam (de casaco vermelho) com a família, que ela quer levar para a cidade alemã de Tröbitz, onde ela foi libertada

“Eu nunca esperei nada – 15 mil euros [R$ 66.561, em valores de 6 de agosto de 2019] é muito dinheiro. Estou planejando fazer algo especial com isso. No ano que vem serão 75 anos desde que me libertei. Estou planejando levar toda a minha família – os filhos e netos – para Tröbitz para celebrar minha vitória pessoal.”

Mirjam mudou-se para Israel em 1953. Toda a sua família se mudou para lá “porque não queríamos que nada assim acontecesse novamente”.

“Eu me casei, meu marido é sul-africano. Vivemos no Kibbutz Tzora e criamos cinco filhos. Tenho 14 netos.”

Ela acrescenta que, infelizmente, um de seus filhos foi morto em um acidente de helicóptero enquanto trabalhava como piloto no Exército israelense.

Qual foi o papel da empresa ferroviária?

Um representante do Memorial Nacional de Westerbork, Dirk Mulder, disse em uma entrevista à TV no ano passado que a NS havia “cumprido a ordem alemã de disponibilizar trens”.

“Os alemães pagaram por isso e disseram que a NS tinha que elaborar um cronograma. E a empresa o fez sem uma palavra de objeção”, disse Mulder.

Westerbork tornou-se um campo de trânsito em 1941 e os primeiros deportados partiram de lá em 15 de julho de 1942. O último trem partiu com 279 judeus. Além dos 100 mil judeus, foram deportados da Holanda 245 ciganos.

Em novembro do ano passado, a NS disse que seu papel na operação de trens em nome dos ocupantes nazistas da Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial era “um passado do qual não podemos desviar o olhar”.

A NS, que se desculpou formalmente em 2005 e descreveu as deportações como uma “página negra na história da empresa”, prometeu a cada sobrevivente 15 mil euros, enquanto até 7,5 mil serão destinados a filhos e cônjuges viúvas de vítimas.

“Estima-se que vários milhares de pessoas sejam elegíveis para o subsídio, incluindo um número estimado de 500 sobreviventes. A NS vai reservar várias dezenas de milhões de euros para isso nos próximos anos”, disse a empresa, em um comunicado, em junho.

A Organização Mundial Judaica de Restituição, que reivindica as propriedades judias roubadas pelos nazistas na Europa, saudou a medida, mas também pediu que a NS fornecesse fundos adicionais como uma “expressão coletiva de reconhecimento do sofrimento e do destino” das vítimas.

Esses fundos adicionais, disse o grupo, poderiam ser usados ​​para “perpetuar a memória daqueles que pereceram” através de uma variedade de programas educacionais.

Fonte: BBC

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