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Quo vadis Jornalismo?

Hoje, para não detalharmos sucessivos períodos, o jornalismo enfrenta uma nova etapa.

Ela seria, por assim dizer, pós-industrial, em que além de circular com informações produzidas por profissionais ancorados em uma teoria e ética da área, em uma estética e técnica próprias, consolidadas pela divisão social do trabalho e pela definição de determinados papéis sociais, enfrenta também as possibilidades tecnológicas de que outros atores sociais produzam os conteúdos então privativos da área profissional, podendo prescindir da mediação jornalística para fazer circular fatos, ideias e interpretações no presente imediato, em períodos cada vez mais reduzidos de tempo e em escala massiva e planetária.

Como manter os pilares morais da atividade jornalística diante de um cenário tão fortemente em mutação?

Alguns autores chegam a falar no fim do jornalismo – seja como confecção informativa própria, seja como ideal de representação pública dos fatos e versões mais significativos de nosso tempo (MARTÍNEZ ALBERTOS, 1997; COOPERATIVA LAVACA, 2006).

O pessimismo atinge até mesmo profissionais que não vislumbram a realização efetiva dos ideais e valores ético-normativos profissionais (isenção, credibilidade, legitimidade social, interesse público, respeito à privacidade, sigilo de fontes, acurácia, precisão, rigor no método, busca pela verdade/verossimilhança, rechaço do plágio, entre dezenas de outros), como atestam alguns trabalhos e estudos no âmbito do Chaire de recherche en éthique du journalisme (http://www.crej.ca), com sede em Ottawa, Canadá (BERNIER, 2008; 2008a), ou experientes jornalistas (TCHEKARSKI, 2003). No entanto, o próprio Bernier (2004) reacende a esperança em livro que é sucessivamente reeditado e atualizado.

O sentido público do jornalismo, alicerçado em valores como credibilidade e legitimidade sociais, está em crise… ou o sentido público do jornalismo se reafirma mediante traços distintivos propiciados pela crescente concorrência de novos produtos, segmentação, diversidade de atores e protagonistas de fatos , versões e interpretações?

O sentido ético do jornalismo definha ou tal sentido, pela concorrência e oposição – onde se incluem campos simbólicos de fiscalização moral –, exige uma qualificação ainda maior nos processos de escolha de acontecimentos e de fontes; em seleção e hierarquização noticiosa; em edição correspondente ao interesse público e à exatidão e verossimilhança ainda mais exigidas?

Estaria perdendo força e credibilidade o papel do jornalismo como impulsionador do espaço público normativo e como impulsionador da vitalidade da vida democrática?

Estaria havendo mudanças nas rotinas profissionais, a ponto de o eixo do espaço público e da vida democrática, para acesso e decodificação dos fatos e versões significativos do presente imediato, deslocar-se para novas mídias e formas de confecção de conteúdos?

Parece haver um novo cenário do jornalismo dentro do Ciberespaço e da chamada Sociedade da Informação e do Conhecimento, com foco em: a) a aparente crise que atravessa a profissão; b) as potencialidades de renovação do jornalismo e de seus ideais valorativos (o campo da ética) a partir de um cenário em que cresce a fiscalização e a oposição ao jornalismo.

Neste último cenário, é saudável que surjam mais e diversificadas mídias, com novas abordagens, linguagens, com possibilidade de novas fontes e renovadas interpretações, concorrendo para que o jornalismo de corte tradicional ainda mais se esmere para qualificar sua produção, exigindo profissionais que, ao professar a atividade, busquem melhorias desde a perspectiva técnica e ética.

Se o jornalismo teve, como profissão, a incumbência de vigilante social, de guardião do interesse público – de forma ideal –, também sempre viveu à sombra de certos constrangimentos (um conflito que o atravessa desde seu surgimento, já que os negócios, de um lado, exigiam certos limites operacionais – econômicos, políticos, ideológicos… – e, de outro, necessitavam ampliar o público para torná-lo consumidor e, portanto, tal público deveria ser heterogêneo também desde a perspectiva política, econômica, ideológica… ).

Estaria tal contradição – na medida em que permanece e se amplia – constrangida pelo surgimento de novos produtores de conteúdo e de novas mídias que encurralam o jornalismo nos interesses estritamente particulares e o obrigam a corrigir-se e justificar-se moralmente na sociedade?…

Alguns autores chegam a falar no fim do jornalismo ou em sua substituição por novas formas de confecção informativa e de interpretação da realidade. Em tal direção aponta um grupo de jornalistas que, situados na Cooperativa Lavaca, com sede em Buenos Aires, mostra um conjunto de experiências fora da grande mídia.

Estas experiências são descritas no livro El fin del periodismo y otras buenas notícias (COOPERATIVA DE TRABAJO LAVACA, 2006) e destacam novos meios sociais de comunicação que substituem, com vantagens políticas e ampla diversidade cultural e de fontes, os meios tradicionais, sem os limites operativos de ordem política, econômica e mercadológica destes, principalmente dos macrogrupos que atuam sobre as e dentro das grandes corporações midiáticas.

Uma das principais justificativas dadas pelos profissionais da Cooperativa é que o capitalismo midiático entrou em crise, uma vez que “los médios comerciales de comunicación vivieron gracias a sus relatos de una actualidad a la que las audiencias no podrían acceder por sí mismas” e hoje “ya no viven de los relatos que publican, sino de aquellos que ocultan” (COOPERATIVA DE TRABAJO LAVACA, 2006, p. 6-7).

Preveem que o jornalismo sofre mudança substancial em sua estruturação e rotina1. E isso remete a um novo cenário, no qual cresce a segmentação e o envolvimento político com os processos informativos sem a dependência de grandes anunciantes, corporações e acionistas.

Desta forma, a busca pela atualidade e seu contexto, a investigação dos processos sociais que geram fatos e versões, a precisão e a verdade poderiam se tornar mais visíveis, uma vez que se multiplicam os atores políticos produtores de conteúdos.

E isto reforça o campo da ética e sua transparência, incluindo a da própria atividade jornalística, que ainda deveria ser ancorada nos valores específicos históricos da área.

Parte do Texto do Artigo “Jornalismo e ética no século XXI* de Francisco José Castilhos Karam** – Jornalista e professor na Universidade Federal de Santa Catarina,

Fonte: Universidade Metodista

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