Você está aqui
Início > Brasil e Mundo > Por que números do PIB sugerem ‘otimismo cauteloso’ para 1º ano de governo Bolsonaro

Por que números do PIB sugerem ‘otimismo cauteloso’ para 1º ano de governo Bolsonaro

Depois de dois trimestres marcados por índices de crescimento próximos de zero, a economia viu uma leve melhora no terceiro trimestre de 2018. O crescimento segue em marcha lenta, mas teve uma pequena aceleração em relação ao observado no primeiro semestre.

De acordo com o IBGE, entre julho e setembro, o PIB (Produto Interno Bruto) avançou 0,8% em relação ao trimestre anterior – contra crescimento de 0,2% tanto no período de janeiro a março quanto no intervalo entre abril e junho, na comparação com os períodos imediatamente anteriores e já feito o ajuste sazonal.

“Sobrevivemos”, resume a economista Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro do Ibre-FGV (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas). “Não é um crescimento maravilhoso ainda, mas é razoável diante do que perdemos, depois de um segundo trimestre com greve de caminhoneiros, e um terceiro trimestre difícil, com pioras no mercado internacional e um cenário eleitoral conturbado.”

A melhora recente do PIB ajudou a compensar pelo impacto negativo que a paralisação dos caminhoneiros teve no segundo trimestre. Para Margarida Gutierrez, especialista em contas públicas e professora da Coppead/UFRJ, essa recuperação tende a se acentuar no quarto trimestre.

A reação dos índices de confiança do consumidor, do comércio e da indústria divulgados nesta semana pela FGV corrobora essa expectativa.

“Mas olhar para o terceiro trimestre é olhar para o retrovisor. Foi um período muito ruim, marcado por muitas incertezas para a economia. Acho que as melhores perspectivas são para o ano que vem”, considera.

“Se houver reforma da Previdência e se o cenário internacional não desembocar em uma crise, devemos crescer em torno de 2,5%, até 3%, em 2019.”

Este “se” condicionando um impulso maior ao crescimento à realização da reforma da Previdência foi repetido pelos demais economistas consultados pela BBC News Brasil.

O tom é de otimismo cauteloso com o próximo ano, ressaltando que a reforma será chave para o futuro governo Jair Bolsonaro e para o ciclo virtuoso que vem sendo prometido por Paulo Guedes, o “guru” econômico do militar reformado e seu futuro ministro da Economia.

Consumo e investimento em destaque

Nos resultados do PIB do terceiro trimestre, Silvia Matos, do Ibre-FGV, destaca o melhor desempenho do consumo das famílias, que cresceu 0,6% em comparação com os três meses anteriores, quando tinha variado 0,1%.

O índice ainda é baixo, mas indica uma leve recuperação em uma área fundamental da economia, que representa 60% do PIB.

Família faz compras no supermercado

O melhor desempenho do consumo das famílias é puxado pela melhora gradual do mercado de trabalho

O PIB é a soma de todos os bens e serviços produzidos no país e indica o ritmo de evolução da economia – que deve expandir cerca de 1,39% neste ano, de acordo com a média de estimativas de consultorias e instituições financeiras reunidas pelo Banco Central no Boletim Focus. Em 2017, o ano de saída da crise, o país cresceu 1%.

O melhor desempenho do consumo das famílias é puxado por uma melhora gradual do mercado de trabalho, confirmada nesta semana pelo IBGE, que indicou a sétima queda mensal seguida do índice de desemprego no país. A taxa caiu para 11,7% no trimestre encerrado em outubro, mas o desemprego ainda atinge 12,4 milhões de brasileiros – e a queda vem sendo puxada pelo aumento do número de trabalhadores sem carteira assinada e por conta própria, que bateram recorde.

“Ainda que com uma qualidade ruim, estamos vendo mais emprego, a renda está crescendo e isso ajuda a sustentar o crescimento do consumo das famílias de bens e serviços”, afirma, estimando que, até o fim do ano, a massa salarial real cresça em torno de 3%.

Outro resultado positivo veio dos investimentos, que têm peso de aproximadamente 20% do PIB – neste caso, contudo, a alta vem acompanhada de uma ressalva.

De julho a agosto, os investimentos tiveram aumento de 6,6% em relação ao intervalo entre abril e junho – uma recuperação significativa, já que o segundo trimestre registrou retração de 1,3% em relação ao primeiro, a primeira queda após um ano de resultados positivos.

Mulher efetua compra com cartão

‘Ainda que com uma qualidade ruim, estamos vendo mais emprego, a renda está crescendo e isso ajuda a sustentar o crescimento do consumo das famílias’, diz analista

A alta reflete, porém, a inclusão de plataformas de petróleo que já estavam sendo usadas no país no cálculo feito pelo IBGE e, por isso, pode passar uma impressão enganosa de investimento novo. “Tirando o acréscimo representado pelas plataformas, o investimento novo mesmo deve mais ou menos compensar a queda que vimos no segundo trimestre”, calcula Matos.

Durante a crise, os investimentos despencaram cerca de 30%, e a reação tem tido ritmo mais lento do que se esperava.

Desafios para governo Bolsonaro

O crescimento continua tímido em todas as áreas, na saída lenta que o Brasil vem tendo da recessão. De acordo com o Comitê de Datação de Ciclos Econômicos (Codace), da FGV, o período de retração prolongou-se por 11 trimestres, até o fim de 2016, e significou queda de 8,6% no PIB.

“O governo Temer conseguiu implementar algumas reformas difíceis, como o teto de gastos e a reforma trabalhista, e vem trabalhando para melhorar a situação”, considera José Ronaldo de Castro Souza Júnior, Diretor de Estudos e Políticas Macroeconômicas do Ipea. “Mas ela ainda não está resolvida. Temos uma economia em recuperação, embora lenta. Ainda falta muito a fazer.”

Para Souza Júnior, Temer transferirá a economia em uma situação melhor a Bolsonaro do que herdou da ex-presidente Dilma Rousseff.

Bolsonaro receberá o país com inflação em queda – e com expectativa de fechar o ano abaixo da meta de 4,5% – e a taxa de básica de juros, a Selic, em seu menor nível histórico, os atuais 6,5% ao ano.

“As incertezas ligadas à questão fiscal foram um entrave para que a recuperação acontecesse de uma forma mais forte ao longo deste ano”, considera o analista do Ipea. “Além disso, empresários estavam reticentes para fazer avanços mais ousados diante das incertezas eleitorais. Agora, tudo vai depender das ações do próximo governo.”

Inicialmente, o futuro presidente poderá se beneficiar do otimismo que sua eleição despertou no mercado. Entretanto, Souza Júnior considera que o momento é de “compasso de espera” – com investidores e empresários de olho nos primeiros passos de Bolsonaro.

Reforma da Previdência

Os desafios para equilibrar as contas públicas, entretanto, são tremendos. Neste ano, o rombo nas contas do governo deve ficar em torno de R$ 140 bilhões. O valor é a diferença entre o que o Estado arrecada com impostos e tributos e suas despesas.

Nos últimos anos, o baixo nível de atividade econômica contribuiu para que a conta não fechasse, derrubando a arrecadação.

Para Juan Jensen, economista e sócio da 4E Consultoria, não haverá ajuste fiscal duradouro sem que se faça uma reforma da Previdência, já que o governo terá pouca margem de manobra para cortar outros gastos obrigatórios. “O que tinha para ser cortado com facilidade a Dilma já cortou, o Temer já cortou”, afirma. Isso coloca de saída um grande desafio para Bolsonaro.

Idosos fazendo ginástica

Reforma da Previdência será chave para o para o futuro governo Jair Bolsonaro, segundo especialistas

“A reforma é fundamental e tem que ser feita enquanto o governo tem capital político para tal”, considera Jensen. “Ele perderá popularidade, mas é fundamental que faça no primeiro ano para depois colher os frutos. Se não, os próximos quatro anos serão de alastramento da crise”, prevê.

“A reforma é fundamental”, reforça a economista Margarida Gutierrez, professora da Coppead/UFRJ. “Sem ela, tudo vira nada”, considera.

Jensen vê “duas camadas de restrições” no caminho de aprovação da reforma. Em primeiro lugar, aponta que o próprio Bolsonaro tem feito declarações que sugerem que não irá corroborar uma mudança muito radical – tendo defendido recentemente, por exemplo, a aprovação de idades mínimas de aposentadoria de 61 anos para homens e 56 anos para mulheres.

Para o economista, isso traria resultados menos significativos que na versão proposta por Michel Temer, que fixaria idades mínimas de 65 e 62 anos, respectivamente, para homens e mulheres se aposentarem.

A seu ver, entretanto, os principais obstáculos estarão no Congresso. “Não vai ser fácil e não é provável que se aprove uma reforma da Previdência tão forte e robusta quanto o país precisa”, considera Jensen.

“É um tema delicado, impopular, que demandará muita habilidade de negociação do governo. Mas vários ministros, incluindo o Paulo Guedes e o Onyx (Lorenzoni, futuro chefe da Casa Civil) são marinheiros de primeira viagem, sem experiência nessas funções de articulação política.”

Futuro ministro da Fazenda, Paulo Guedes declarou recentemente que a aprovação da reforma da Previdência e de lei que garanta a independência do Banco Central ainda neste ano poderiam assegurar um crescimento de 3,5% do PIB no Brasil já em 2019.

Após o segundo turno, entretanto, o esforço da equipe de transição para emplacar as medidas na agenda do Congresso neste fim de ano terminou malogrado, e as negociações caberão ao próximo governo.

Emprego e índices de confiança

A continuidade dos altos índices de desemprego, atingindo 12,4 milhões de pessoas atualmente, contribui para que a população siga sentindo a crise na pele. Para Jensen, a manutenção do ritmo atual de crescimento não será capaz de surtir grandes mudanças sobre esse quadro.

Pessoas subindo e descendo escada-rolante de shoppping

O tom dos especialistas é de otimismo cauteloso com o próximo ano

“Para que o desemprego caia de forma mais firme, o PIB precisaria crescer a partir de 3% ao ano. Para isso, é preciso fazer as reformas estruturais e gerar mais confiança”, ressalta.

“Fazer o diagnóstico é fácil, mas fazer (de fato) é difícil”, completa Silvia Matos, do Ibre-FGV. “Não é trivial. Temos muita expectativa, mas o desafio persiste.”

Matos considera que as reformas são importantes para o Brasil se fortalecer diante de um cenário externo que promete trazer dificuldades para 2019, com fatores como a briga comercial entre os Estados Unidos e a China e a política monetária nos Estados Unidos, que deve continuar subindo sua taxa de juros.

“O ambiente externo não é muito favorável, o que diminuiu a nossa margem de erros. O governo não pode errar”, diz Matos.

Indicadores de confiança medidos pela FGV divulgados nesta semana deram sinais de otimismo após a eleição de Jair Bolsonaro.

O Índice de Confiança do Comércio (ICOM), subiu 6,9 pontos em novembro (de 92,5 para 99,4 pontos), chegando ao maior nível desde março de 2014. O Índice de Confiança da Construção (ICST) teve a terceira alta consecutiva em novembro, chegando ao maior nível desde janeiro de 2015. E a confiança do consumidor avançou para o maior nível desde julho de 2014, subindo dois meses seguidos e chegando a 93,2 pontos em novembro.

“Só de ter acabado o período eleitoral já vimos uma acalmada em relação ao futuro. A tensão se reduziu porque começa a haver ações mais claras se definindo no horizonte”, diz José Ronaldo de Castro Souza Júnior, Diretor de Estudos e Políticas Macroeconômicas do Ipea.

Juan Jensen considera que o momento gerou uma expectativa positiva na economia pelas reformas prometidas por Paulo Guedes, e que sua presença no governo despertou “um certo oba-oba”. Para ele, entretanto, essa expectativa ainda não inspira forte convicção – até porque há o temor de que o elo entre Bolsonaro e Paulo Guedes possa eventualmente se romper.

“As coisas estão em compasso de espera para ver para onde o Brasil caminha. Os primeiros seis meses serão fundamentais para ver o que o governo irá propor, e qual será a sua capacidade de implementar.”

Fonte: BBC

Deixe uma resposta

Top
%d blogueiros gostam disto: