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‘Não existe perdão sem cólera’: as memórias da ‘bailarina de Auschwitz’

A bisavó franzina de 91 anos que caminha pelas ruas de Lausanne em nada lembra a adolescente que há 75 anos quase morreu de inanição. Com um lenço de seda ao redor do pescoço e o cabelo penteado com laquê, ela se mistura às mulheres elegantes que circulam pelos cafés às margens do lago Léman.

Edith Eger, porém, não é “apenas mais uma” mulher entre os pedestres. Ela é uma sobrevivente. É o que na língua inglesa chamam de “tough cookie”, ou um “biscoitinho duro”.

A psicóloga esteve no mais temido complexo de campos de concentração e de extermínio da Segunda Guerra Mundial, sobreviveu e conta sua experiência para inspirar vítimas de traumas de guerra a superarem seus medos. Ela trabalhou durante anos com veteranos do Vietnã e de outros conflitos e hoje dá palestras motivacionais.

“Meus pais tiveram que morrer para eu estar aqui com você hoje”, disse ao receber a reportagem da BBC News Brasil. Atualmente ela fica baseada em La Jolla, Califórnia, e veio à Suíça palestrar sobre perseverança e motivação, na semana que coincide com os 74 anos da derrota nazista.

Durante a guerra ela foi perseguida por ser judia, mas diz que – apesar de ter sofrido violência nos campos de concentração – não se sente vítima. Edith acredita que um indivíduo carrega dentro de si a decisão de jamais se deixar abater.

“Ser vítima é uma escolha”, afirma. Em seu livro de memórias The Choice: Embrace the Possible (lançado no Brasil em março com o título A Bailarina de Auschwitz), ela argumenta que é necessário fazer a escolha consciente de abrir mão de eternizar-se como vítima, porque somente assim o indivíduo reivindicará para si a capacidade de superar seus traumas.

Para ela, encarar abertamente seus sentimentos a faz mais forte. “Gosto de olhar para essa cicatriz que eu afago, que me conduz hoje a guiar outros a curar suas angústias. É necessário reconhecer que não há perdão sem cólera”, disse à BBC News Brasil.

Edith antes dos campos de concentração

Filha menor de uma família de três irmãs, Edith sonhava em ser ginasta olímpica

Arrependimento

Um dos sentimentos mais difíceis que Edith teve que encarar foi a culpa. No seu livro de memórias ela descreve o momento mais decisivo de sua vida como tendo ocorrido na chegada a Auschwitz, em abril de 1944, quando uma resposta dela selou o destino da mãe.

A família foi enviada a Auschwitz por ser judia e não fazia ideia de que execuções em massa estavam ocorrendo ali. Ao ver os portões com o dizer “o trabalho liberta” (Arbeit macht frei), o pai dela, Lajos, comentara com otimismo que tudo iria ficar bem e eles iriam apenas ter que trabalhar até o fim da guerra.

À entrada do campo, o médico nazista Josef Mengele, notório por seus experimentos cruéis com prisioneiros e conhecido pelo apelido de “Anjo da Morte”, fazia a triagem dos recém-chegados. Mengele separava-os em dois grupos: pessoas idosas, doentes, inválidos e mães com crianças de colo seguiam à esquerda. Jovens aptos ao trabalho seguiam à direita.

Ilona, a mãe de Edith, era saudável e tinha um rosto de poucas rugas, mas seus cabelos eram precocemente brancos, o que fazia com que ela parecesse mais idosa. Era difícil deduzir a idade de Ilona. Mengele perguntou então à jovem Edith se aquela era sua irmã ou a mãe.

Ignorante das consequências, Edith respondeu espontaneamente que Ilona era a mãe o que levou Mengele a ordenar que a mãe passasse à fila da esquerda se juntando aos idosos.

Edith não sabia que as pessoas da fila da esquerda estavam sendo levadas imediatamente às câmaras de gás.

“Quando segui minha mãe, ele me agarrou pelo braço, olhou nos meus olhos. Nunca vou esquecer aqueles olhos. Você sabe, posso te matar com o meu olhar ou te amar com o meu olhar”, descreveu o momento à BBC News Brasil. Ela ouviu de Mengele que precisava largar da mãe, pois ela iria apenas “tomar um banho”.

Green card de Edith quando ele imigrou para os EUA

Edith imigrou para os Estados Unidos depois de ter sobrevivido ao holocausto

Edith só compreendeu a gravidade do que se passou ali quando chegou ao dormitório. Ela queria saber quando a mãe retornaria do banho e uma colega apontou para as chaminés e disse: “É lá que sua mãe está queimando”. A adolescente nunca mais viu os pais.

Edith carregou consigo a culpa pela morte da mãe por décadas – só se perdoou em 1980, quando visitou Auschwitz novamente e reviveu aquele dia.

Nas primeiras semanas no campo de extermínio, as colegas prisioneiras ficaram sabendo que a jovem praticava ginástica olímpica e dança, e certa noite Edith foi chamada a se apresentar perante os oficiais. De olhos fechados, ela executou o Danúbio Azul, a valsa de Johann Strauss 2º, para o temido Mengele. A apresentação lhe rendeu o apelido de “bailarina” e um pedaço de pão, que ela compartilhou com as colegas.

Edith e seu marido com seu primeiro filho

Edith e seu marido com seu primeiro filho; ela o conheceu depois da guerra

Em um dos dias que se seguiram à dança, Mengele a chamou ao seu escritório. Edith foi retirada às pressas do banho coletivo e levada nua à presença do torturador.

Ela conta acreditar que estava prestes a sofrer algum tipo de abuso, mas que Mengele foi interrompido por um telefonema e teve de retornar ao trabalho.

A hoje bisavó não chegou a ser mercada com um número tatuado em Auschwitz, porque o tatuador não quis gastar tinta com ela, acreditando que Edith sequer sobreviveria uma semana.

Mengele fugiu para a América do Sul depois da guerra e morreu afogado após sofrer um AVC nadando em Bertioga, no litoral paulista, em 1979.

“Sempre quis reencontrá-lo. Imaginava que me tornaria uma jornalista e iria à América do Sul encontrá-lo para dizer que eu era aquela menina de 16 anos que dançou para ele”, contou à BBC News Brasil, acrescentando que sonhava em denunciá-lo pelas mortes e sofrimentos que causou.

Edith no dia do seu casamento, em 1946

Edith no dia do seu casamento, em 1946; “minha vida não acaba em Auschwitz”, diz

A vida após a guerra

“Minha vida não acaba em Auschwitz. Faço tudo a meu alcance para que isso fique claro”, conta Eger.

Em 2017, ela publicou a autobiografia, em que documenta não apenas as recordações do campo de concentração, mas também a migração para os Estados Unidos e as lições de toda uma carreira na psicologia clínica.

A narrativa de Edith começa com a infância na cidade de Košice, atual Eslováquia. A filha menor de uma família de três irmãs, ela era carinhosamente chamada pelo pai alfaiate de “Dicuka”, um de seus apelidos.

Seu sonho era se tornar ginasta olímpica, mas os planos foram azedados pelo preconceito antissemita. Ela ouviu da treinadora que fora desclassificada por causa da origem judaica da família.

Magda, a irmã mais velha, era charmosa e ousada. Klara, a irmã do meio, brilhava pelo seu prodígio no violino. A mãe Ilona e o pai Lajos levavam uma existência pacata. Os avós e o namoradinho, Eric, completavam o círculo de relações próximas que foi despedaçado pela guerra.

Antes de chegar ao campo de concentração, a família já havia sido forçada a trabalhar em uma olaria. Depois de Auschwitz, as irmãs foram enviadas a uma tecelagem e depois a uma fábrica de munição.

Edith e Magda ainda foram removidas diversas vezes, marchando à força por dias e escapando por pouco da morte. Sempre contando uma com o consolo da outra. Finalmente, no início de maio de 1945, as duas foram liberadas por tropas aliadas que passavam por Gunskirchen, na Áustria.

No campo de Gunskirchen, havia corpos em putrefação espalhados por todos os lados. Exausta e faminta, Edith aguardava a morte deitada entre os corpos, sem forças sequer pra falar. Um soldado percebeu a mão dela se mexendo e a resgatou entre os cadáveres.

Edith nos anos 1950, nos EUA

Além dos pais, Edith também perdeu os avós e o namorado na guerra

Desejo de viver

“É preciso encontrar o poder da vontade dentro de si. Nascemos com o desejo dentro de nós. Eu sabia que era temporário, que eu deveria viver um dia de cada vez”, diz ela.

Além dos pais, ela perdeu os avós e o namorado na guerra. Após o conflito, casou-se com Béla Eger, a quem conhecera em um hospital para tuberculosos. Juntos, emigraram para os Estados Unidos, inicialmente se estabelecendo em Baltimore e depois em El Paso.

Edith Eger teve três filhos – Marianne, Audrey e John – educou-os, formou-se em psicologia, divorciou-se e casou-se novamente com o mesmo homem e mudou-se para a Califórnia.

Há mais de quarenta anos, ela trabalha ajudando veteranos de guerra, adolescentes com distúrbios alimentares, donas de casas deprimidas e até extremistas de direita racistas. Sua grande paixão são as palestras motivacionais que dá a soldados do Exército dos Estados Unidos.

Livro de Edith saiu sob o título "A Bailarina de Auschwitz"

Em “A Bailarina de Auschwitz”, Edith faz uma jornada reflexiva sobre escolhas e vulnerabilidade

No processo de cura que viveu dos próprios traumas, Eger foi ajudada por outro sobrevivente dos campos de concentração, o psicanalista austríaco Viktor Frankl, criador da logoterapia, escola de pensamento da psicologia baseada na busca de significado à vida.

Autor de Em Busca de Sentido, Frankl influenciou-a com a ideia de que há um desejo, uma escolha, por essa busca.

“A busca de um significado é a primeira motivação para viver (…) Esse significado é único e específico e precisa ser preenchido por aquele indivíduo somente, apenas assim ele irá alcançar a significância que irá satisfazer o seu próprio desejo por significado”, diz um trecho de Em Busca de Sentido citado em A Bailarina de Auschwitz.

Aos 91 anos, ela segue assertiva na compreensão desse significado.

“Sabe qual é a minha definição de amor?”, pergunta.

“A habilidade de abrir mão. Largue mão de qualquer necessidade de perfeccionismo. Deixe seus filhos em paz. Ensine-os a ser bons pais de si mesmos e largue-os da mão. Amor não é o que você sente, é o que você faz.”

Ou, como ela resume em seu livro, a “mais importante verdade que já aprendi”: “a chave (…) é a vontade de desprender-se de julgamentos e reconquistar sua inocência, aceitando e amando a você mesmo por quem você é: humano, imperfeito e completo”.

Fonte: BBC

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