Você está aqui
Início > Brasil e Mundo > Meio ambiente > Motivo de caos no Rio, chuva anormal para outono é ‘retrato de clima mais hostil’

Motivo de caos no Rio, chuva anormal para outono é ‘retrato de clima mais hostil’

O caos que se espalhou com as fortes chuvas do Rio de Janeiro na segunda-feira à noite, com ruas virando rios e pelo menos três mortes, pode estar associado ao temporal que matou 7 pessoas na cidade em fevereiro, aos alagamentos que mataram mais de 30 pessoas em São Paulo em março e a outros eventos climáticos extremos que têm ocorrido com frequência cada vez maior no mundo – como os incêndios na Califórnia, os invernos rigorosos no hemisfério norte ou a devastação causada pelo ciclone Idai no Sul da África.

Segundo o ambientalista Carlos Rittl, secretário executivo do Observatório do Clima, esses eventos extremos “estão se tornando mais frequentes e mais intensos”, deixando as cidades – e seus moradores – cada vez mais vulneráveis.

“O clima mais hostil já faz parte do nosso cotidiano. A cada par de semanas temos notícias negativas dos impactos desses eventos extremos na vida dos brasileiros”, considera Rittl. O Observatório do Clima é uma rede composta por 43 organizações da sociedade civil engajadas no combate às mudanças climáticas.

“Ninguém ousaria dizer que um evento isolado é consequência do aquecimento global sem uma análise detalhada. Mas a soma do que está acontecendo ao longo do tempo, essa maior frequência e maior intensidade de eventos climáticos, definitivamente estão relacionadas à maior temperatura do planeta”, afirma.

Na noite de segunda, um forte temporal provocou enchentes em várias partes do Rio, atingindo fortemente comunidades como a Rocinha, Rio das Pedras e Babilônia, onde moradores foram soterrados por deslizamentos, e bairros como o Jardim Botânico, com fortes correntezas descendo das encostas da Floresta da Tijuca, carregando pedras, arrastando carros e destruindo asfalto pelas ruas. Bombeiros usaram botes para resgatar pessoas ilhadas no trânsito – incluindo crianças presas em um ônibus escolar.

O volume de água derrubou mais um trecho da ciclovia Tim Maia, na Avenida Niemeyer, danificando ainda mais a ciclovia à beira-mar construída para a Olimpíada no Rio, mas que teve um trecho engolido por ondas em uma ressaca antes mesmo dos jogos. Outro trecho havia desabado nas chuvas de 6 de fevereiro.

Duas mulheres morreram soterradas em deslizamento de terra no Morro da Babilônia, no Leme; e um motoqueiro foi encontrado morto embaixo de um carro na Gávea, arrastado pela correnteza de uma rua ao tentar atravessá-la.

A prefeitura decretou estado de crise no município e acionou 34 sirenes em 21 comunidades. O prefeito Marcelo Crivella pediu que as pessoas não deixassem suas casas e afirmou se tratar de uma chuva “completamente atípica”, com precipitação de 152mm na Rocinha em quatro horas – “mais do que a média de abril inteiro”.

“É muito difícil, quando a chuva é forte como foi esta noite, que a gente consiga evitar todo esse caos, mas a prefeitura está atenta, com todas as suas equipes na rua”, afirmou o prefeito na noite de segunda.

Águas de abril?

“Chuvas absurdas” no Rio estão longe de ser novidade, diz Rittl.

Chuva alaga ruas em Botafogo no Rio de Janeiro

Forte chuva provocou enchentes na noite de segunda-feira em várias partes da cidade

“Estamos acostumados com as chuvas de março fechando o verão. Mas já estamos no outono. Tamanha intensidade de chuva em um intervalo de tempo tão curto nessa época do ano não é normal”, considera.

“Chuvas intensas são esperadas, mas não nesta época do ano”, reforça a geógrafa Ana Luiza Coelho Netto.

Coordenadora do Laboratório de Geo-hidroecologia e Gestão de Riscos (Geoheco) da UFRJ, Netto acompanha os padrões dos regimes de chuva no país e afirma que as alterações têm ocorrido “numa velocidade surpreendente” do século 20 para cá, “acompanhando a velocidade das intervenções humanas” e gerando impactos exacerbados pela histórica falta de políticas públicas para lidar com o problema.

“A cidade vem acumulando um descaso na mesma magnitude do caos que se instalou hoje com a chuva”, disse a especialista em entrevista à BBC News Brasil, enquanto se espantava com a quantidade de terra, blocos de cimento e pedras que rolavam pela rua onde vive Jardim Botânico. “Moro aqui há muitos anos e não lembro de ter visto um caos tão grande quanto este”, afirma.

Netto lembrou sua infância no Rio, quando via as ruas do bairro de Botafogo completamente alagadas e pedia abrigo a vizinhos para esperar a água baixar.

“Até parece que isso é novidade, que a grande culpada é a chuva. Não é. É falta de política pública integrada para a cidade”, diz a geógrafa.

“Isso não significa apenas fazer controle de enchente. É ter políticas de moradia, de transporte, de planejamento urbano, de tudo. Estamos falando de uma metrópole. Essa cidade concentra milhões de pessoas, e ninguém está seguro. Nas encostas tem deslizamento. Nas baixadas, enchentes. Cadê o nosso prefeito?”

“A gente acumula esse problema historicamente. A gente prefere ignorar a natureza dessa cidade, e o resultado é esse. Agora as chuvas intensas estão se tornando cada vez mais frequentes, esse caos será mais frequente, e não estamos preparados”, desabafa Netto.

CPI das Enchentes

No fim de março, a geógrafa apresentou um panorama do histórico na CPI das Enchentes sobre inundações na cidade e os desafios que devem ser enfrentados para evitar novos desastres causados por tempestades.

Chuva alaga ruas em Botafogo no Rio de Janeiro

Em algumas comunidades, moradores foram soterrados por deslizamentos, enquanto correntezas arrastavam carros e destruíam o asfalto pelas ruas

A Comissão Parlamentar de Inquérito foi instalada em março deste ano na Câmara dos Vereadores em reação às mortes e destruição causados pelas chuvas de fevereiro.

O objetivo, segundo o vereador Tarcísio Motta (PSOL-RJ), presidente da CPI, é apurar as responsabilidades da prefeitura em reação ao temporal de fevereiro e propor um conjunto de ações e políticas públicas para prevenir e mitigar os efeitos de enchentes – buscando cobrar e estabelecer as responsabilidades do poder público.

“O que não é evitável é a chuva. A tragédia é evitável”, considera Motta.

“A cidade precisa ter uma política de prevenção para diminuir os riscos que um evento climático extremo desses causa; para o momento, entendendo o que é preciso fazer durante um evento climático como esse para evitar riscos aos cidadãos; e para depois, evitando problemas de saúde pública, como a leptospirose”, diz.

De acordo com o vereador, a prefeitura demorou muito a entrar no estado de alerta em fevereiro e custou a interditar vias em perigo, como a Avenida Niemeyer, onde o deslizamento de uma encosta atingiu um ônibus e matou duas pessoas. Para ele, a reação do poder público nesta chuva mais recente terá que ser avaliada nos próximos dias.

A CPI vai apurar ainda cortes orçamentários realizados pelo prefeito Marcelo Crivella, nos últimos dois anos, nas rubricas de prevenção a enchente. Motta afirma que a prefeitura reduziu recursos previstos, por exemplo, para ações rotineiras de drenagem.

“São cortes absurdos, feitos em nome da crise financeira no município, com gerando impactos muito piores das chuvas”, afirma o presidente da CPI.

A CPI vai coletar depoimentos de moradores de algumas das comunidades mais afetadas pelas chuvas de fevereiro – como Vidigal, Guaratiba, Rocinha e Rio das Pedras.

“Normalmente os piores impactos não são necessariamente onde chove mais, mas onde há menor presença do Estado, e maior risco de deslizamentos”, considera Motta.

‘O Brasil tem que tratar essas questões com muita responsabilidade.’

Um levantamento do IBGE sobre municípios brasileiros indica que, entre 2013 e 2017, mais de 1,7 mil cidades sofreram com enchentes e alagamentos, enquanto mais de 2,7 mil – quase metade dos municípios do país – sofreram com secas severas.

Para o ambientalista Carlos Rittl, esses padrões não podem ser ignorados pelo governo brasileiro, que precisa fazer a sua parte para reduzir as emissões de carbono e alcançar o compromisso que o Brasil assumiu no Acordo de Paris.

“Isso não é algo que a gente deve para a comunidade internacional. É algo que o governo brasileiro deve para o cidadão, que está pagando um preço muito alto em função dessas chuvas absurdas”, diz o secretário executivo do Observatório do Clima.

“As consequências podem ser gravíssimas para a saúde humana, para o abastecimento de água, para o fornecimento de energia, para a segurança alimentar, para as cidades costeiras”, lista Rittl.

“Ou a gente se atenta e trata essas questões com muita responsabilidade, ou a gente vai pagar muito caro, com perdas de vidas humanas, de meios de vida e de meios de sobrevivência”, alerta o ambientalista.

Fonte: BBC

Deixe uma resposta

Top
%d blogueiros gostam disto: