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El Paso: EUA negligenciaram a luta contra o extremismo branco?

Os Estados Unidos estão investigando o ataque a tiros em El Paso, que deixou 22 pessoas mortas, como um possível caso de “terrorismo doméstico”. Mas qual é o tamanho dessa ameaça e como ela vem sendo combatida pelas autoridades?

Segundo a polícia, o suspeito, Patrick Crusius, dirigiu centenas de quilômetros até chegar a uma cidade de maioria hispânica para realizar o massacre.

O ataque teria sido “uma resposta à invasão hispânica do Texas”, de acordo com um documento postado minutos antes de ele abrir fogo e cuja autoria os policiais atribuem a Crusius.

Por meio de um comunicado, o FBI, a polícia federal americana, disse que o ataque “ressalta a contínua ameaça representada por extremistas domésticos e perpetradores de crimes de ódio”.

O órgão acrescentou estar preocupado que “extremistas domésticos poderiam se inspirar neste e em ataques anteriores para realizarem atos semelhantes de violência”.

No mês passado, o FBI informou que esse tipo de violência estava crescendo e que a maior parte dos ataques havia sido motivada por alguma forma de ideologia de supremacia branca.

Qual é o tamanho do problema?

Extremistas de direita foram ligados a pelo menos 50 assassinatos em 2018, tornando-se um dos piores anos em termos de violência da direita desde 1995, segundo pesquisadores da Liga Anti-Difamação (ADL), uma organização que monitora crimes de ódio.

Cerca de três quartos dos assassinatos por extremistas foram realizados por afiliados a grupos de supremacia branca, acrescentaram os estudiosos.

Tipos de armas usadas nos massacres nos EUA

Mas a violência praticada por indivíduos ligados a grupos de direita, seja por conexões on-line ou por afinidades ideológicas, já havia ganhado repercussão nacional e internacional antes mesmo de El Paso.

Uma mulher foi morta em uma sinagoga em Poway, Califórnia, em abril. Outro ataque semelhante, a uma sinogoga em Pittsburg, deixou 11 pessoas mortas no ano passado.

Analistas dizem que esses assassinos compartilham uma ideologia comum, de violência, fanatismo e ódio, e acabam ganhando apoio de pessoas que conhecem em fóruns online, como o 4chan e o 8chan. Nessas comunidades virtuais, eles podem discutir ideais ligados à supremacia branca e a outras formas virulentas de racismo.

Passeata da KKK em Washington

Ku Klux Klan é um dos grupos supremacistas brancos mais conhecidos nos EUA

Mas o que as autoridades dos EUA vêm fazendo para combater isso?

Funcionários do FBI dizem que suas investigações vêm acompanhando a ameaça crescente desses grupos.

Em julho, o diretor do FBI, Christopher Wray, disse aos integrantes do comitê judiciário do Senado americano que os agentes haviam feito dezenas de prisões em casos ligados ao terrorismo doméstico nos nove meses anteriores.

Segundo Wray, esses casos incluem duas categorias diferentes – “extremismo violento local”, um termo que ele e outros agentes do FBI usam para descrever indivíduos que são inspirados por “jihadistas globais” e “extremismo doméstico”, um grupo que, para o diretor do FBI, inclui aqueles que são “motivados por alguma versão do que você poderia chamar de violência da supremacia branca”.

Agentes do FBI prenderam cerca de 100 indivíduos em cada categoria, abrangendo aqueles que têm uma afinidade com os “jihadistas globais”, bem como aqueles que são movidos pela ideologia da “supremacia branca”, afirmou ele.

Gráfico mostra piores ataques a tiros nos EUA

Mas outros discordam da avaliação de Wray sobre a atuação do órgão. Eles dizem que, independentemente do número de detenções feitas nos últimos meses, os agentes do FBI e outras autoridades federais prestaram menos atenção do que deveriam ao combate ao extremismo de direita nos EUA.

Os críticos dizem que as autoridades federais deram muita ênfase à descoberta de supostos “jihadistas” nos EUA e “deixaram a bola cair” em seu esforço para combater grupos de supremacia branca.

“O terrorismo da supremacia branca não recebeu a atenção que o terrorismo islâmico recebe”, diz Daniel Benjamin, do Dartmouth College, que trabalhou como coordenador do Departamento de Estado dos EUA para o combate ao terrorismo de 2009 a 2012.

“O FBI e mais tarde o DHS (departamento de segurança interna dos EUA) voltaram sua atenção para a ameaça jihadista e deixaram para trás a ameaça da supremacia branca”.

O fator 11 de setembro

Após o ataque da al-Qaeda aos EUA em 2001, as autoridades investiram recursos enormes em esforços de contraterrorismo. Segundo um relatório do Stimson Center, think tank sediado em Washington, os EUA gastaram US$ 2,8 trilhões (R$ 11,3 trilhões ou cinco vezes o PIB brasileiro) durante os anos fiscais de 2002 até 2017 em contraterrorismo, uma campanha global para conter a violência extremista travada pelos militares e outros meios.

Os gastos com segurança interna foram responsáveis por 35% desse montante, ou aproximadamente US$ 979 bilhões.

Com o passar do tempo, segundo analistas, o investimento de recursos no combate a ameaças de grupos como a al-Qaeda e o auto-proclamado Estado Islâmico (EI) fez com que outras ameaças recebessem menos atenção. No entanto, a ameaça representada por grupos extremistas brancos continuou a crescer.

“Temos sido justificadamente firmes no combate ao extremismo islâmico”, diz Benjamin. Assim que as autoridades descobrem que alguém tem laços com grupos jihadistas internacionais, afirma ele, colocam esses indivíduos sob vigilância.

Mas os ataques contra sinagogas nos EUA, perpetrados por indivíduos afiliados a grupos extremistas de direita, não têm o mesmo impacto junto às autoridades como as ameaças de grupos jihadistas no passado. “Esses ataques em massa são vistos como reflexo do estilo de vida americano – infelizmente”, diz ele. “Não foi dada atenção à ideologia por trás desses ataques.”

Benjamin diz que há outro elemento que contribui para o tratamento relativamente discreto das autoridades aos grupos de supremacia branca: o racismo velado nos Estados Unidos.

“As autoridades não se preocuparam com uma ameaça de dentro – e pelas pessoas que representavam essa ameaça – na mesma medida que se preocupavam com uma ameaça de fora e com uma ideologia estrangeira. No fim das contas, a ideologia supremacista branca tem sido um elemento do estilo de vida americano desde antes da Guerra Civil”, diz.

“É terrível”, diz ele. “Terrível.”

Mike German, ex-agente do FBI e atual bolsista do programa de Liberdade e Segurança Nacional do Brennan Center for Justice na Universidade de Nova York, concorda. Ele diz que o FBI não “tratou todos os terroristas da mesma forma”. Segundo German, os agentes “se concentraram em muçulmanos e muçulmanos-americanos, mas enquanto isso a ameaça letal representada pelos supremacistas brancos foi ignorada”.

“Não há dúvida de que os supremacistas brancos e os grupos de extrema direita matam mais do que os outros grupos”, diz ele. “Mas temos esse enorme ponto cego sobre a extrema-direita e a violência racista”.

Ameaças com nova roupagem

Algumas das mais poderosas organizações extremistas de direita dos EUA existiam bem antes do 11 de setembro. Um dos grupos, Stormfront, que analistas descrevem como um site de supremacia branca, foi criado em 1996, e serviu de inspiração para Dylann Roof, o atirador que matou nove pessoas em uma igreja em Charleston em 2015. Outro site, o Daily Stormer, funciona há anos.

Recentemente, contudo, as comunidades on-line para extremistas de direita e nacionalistas brancos cresceram em popularidade e força, e o tempo de radicalização para novos convertidos acelerou dramaticamente.

“O intervalo entre o momento em que alguém é exposto a uma ideologia a um ataque real diminuiu radicalmente”, diz John Farmer, ex-procurador geral dos EUA.

O processo de radicalização costumava levar meses ou anos. Agora, segundo Farmer, “são apenas algumas semanas”. Isso torna mais difícil para as autoridades federais investigar o planejamento de atentados e encontrar quem está por trás deles.

Vigília fora da Casa Branca depois que um supremacista branco matou uma mulhe em Charlottesville, Virgínia

Vigília fora da Casa Branca depois que um supremacista branco matou uma mulher em Charlottesville, na Virgínia

O que vai acontecer agora?

Muitos questionam se os EUA vão conseguir enfrentar as novas ameaças dos extremistas de direita.

Para alguns, as autoridades estão à altura do desafio.

“O FBI fez um ótimo trabalho”, diz Richard Barrett, ex-diretor de operações globais de contraterrorismo do MI6, a agência de inteligência do Reino Unido.

“Eles têm ficado de olho nesses grupos – há algum tempo”, acrescenta.

As autoridades federais estão investigando os tiroteios em El Paso como um possível caso de terrorismo doméstico. Também vêm tentando impedir que extremistas de direita tomem conta de plataformas de mídias sociais e fóruns on-line.

Além disso, o FBI começou a descrever aqueles que acreditam em teorias conspiratórias radicais como uma ameaça em potencial, uma novidade para o órgão, e um sinal de que os agentes estão lidando com uma nova constelação de ameaças, incluindo o extremismo da direita, bem como ideologias importadas do exterior.

Para outros, no entanto, há um longo caminho a percorrer no combate a esse tipo de militância.

Trump foi anteriormente acusado de minimizar a ameaça dos grupos de extrema direita. O presidente americano também foi criticado por alimentar intolerância em relação às minorias em seus comícios políticos. Há alguns meses, na Flórida, Trump falou sobre a “invasão” de imigrantes.

“Atire neles”, alguém gritou. Em resposta, Trump fez uma piada: “Só aqui você pode se safar disso”.

Na última segunda-feira, 5 de agosto, Trump adotou um tom muito mais crítico depois dos ataques em El Paso.

“Em uma única voz, nossa nação deve condenar o racismo, o fanatismo e a supremacia branca”, disse.

A declaração, no entanto, só foi dada 24 horas depois do ocorrido, um tempo considerável considerando a incontinência verbal comumente associada ao presidente americano.

Críticos do presidente querem ver se, agora, ele vai continuar com esse posicionamento mais duro ou se vai atenuar seu discurso na medida em que a campanha presidencial se aproxima.

Fonte: BBC

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