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645 – O Brasil e a demanda por dar certo Luciano Pires –

E aí? Estamos em período de mudanças ou apenas nos preparando para mais uma grande brochada, hein? Há motivos para ficar otimista? Ou melhor mesmo é continuar pessimista? Afinal de contas, ser pessimista é ser mais inteligente, hein?

Abro o programa com um trecho de um texto de meu amigo Adalberto Piotto, sempre preciso em suas reflexões sobre o Brasil. O texto foi publicado em sua página do Facebook. Ele diz assim:

O Brasil tem demanda reprimida por dar certo.

E logo!

É isso.

(…)

O termo ‘demanda reprimida’ se popularizou nos anos 80, de hiperinflação, para definir o histórico consumo menor dos brasileiros, dado o baixo poder aquisitivo, se comparado ao de outros países que viviam sob uma economia estável.

Ou seja, no estado de “demanda reprimida”, há vontade de comprar, mas não há dinheiro.

(…) nós, os brasileiros, estamos envoltos no momento em um desejo imenso de fazer o país avançar, parar de andar de lado, não sucumbir mais ao atraso e a ineficiência dos voos de galinha ou a debates comportamentais que se esquecem de fazer o bolo de todos crescer.

Um artista que vive bem do capitalismo numa grande empresa capitalista de comunicação, fazendo discursos que o mantém onde está e não ajuda o seu público a sair de onde este público quer sair, evoluir, já está sendo criticado como nunca foi, numa queda da máscara inevitável.

Milton Nascimento diz em sua música que o artista tem de ir aonde o povo está. E não é ao lado de corruptos, de ideologias ultrapassadas que não promovem bem-estar autônomo e sustentável de quem vive a vida real.

Por isso tudo, creio que o debate nacional, no jornalismo e também nas conversas paralelas da vida de cada um, precisa se ajustar a esse momento, coletivo consciente pra muitos e inconsciente pra tantos outros, sob o risco de o interlocutor perder a importância.

Isto, por exemplo, não diminui a crítica sobre o novo governo, mas tende a qualificá-la.

Com a oposição diminuída pela sua desastrosa época de governo, o debate que os cidadãos vão esperar – e protagonizar – não será mais do “Fora, fulano”, meramente ideológico ou amargurado, magoado, perdedor.

O debate passará pela forma, conteúdo e percentual de eficiência de cada decisão governamental que, se não for do agrado do crítico, obrigará este a apontar alternativas factíveis, sem a embromação que a pedra dá em relação à vidraça, coisa que muitas “fontes” se acostumaram.

Tempos outros, meus caros. O da honestidade intelectual.

Tempos alvissareiros de uma sociedade que começa a aceitar a parte errática de seu passado como antídoto para um futuro de inovações e avanços como nação.

Bem, meu amigo Adalberto Piotto é um irremediável otimista, cara. E tem de ser, aliás, todos temos de ser otimistas. Se não por ingenuidade ou por uma visão de mundo idílica, que seja por inteligência. Há muito foi provado que quem tem uma visão otimista do futuro, vive melhor. É menos amargo. E de gente amarga, to porrrrraqui…

Mas há controvérsias…

É muito difícil você viver uma vida sendo pessimista o tempo inteiro, né? É alguma coisa como… falta um certo oxigênio simbólico, né? O sentimento de que há esperança é uma coisa essencial pros seres humanos. Tanto é que quando você sente que não tem esperança nenhuma pra sua vida,  você fica… sei lá,  na linguagem de hoje em dia, deprimido. Você se sente incapaz.

Ao mesmo tempo, essa questão que você pode falar no sentido pessoal, né? Ser alegre, ser triste, alguma coisa assim, que claro, não é a mesma coisa que depressão, você também tem um sentido mais largo. Por exemplo: quando você pega a origem do cristianismo, na origem do cristianismo os cristãos tiveram que resolver um problema no seu processo de constituição. Eles iam aceitar o judaísmo como sua origem. Se não aceitassem não teriam como fazer de Jesus o Messias, né? Porque isso era uma coisa que vinha do judaísmo. 

E aceitar ou não… teve um grupo de cristãos que não aceitou isso. Não vou entrar no mérito técnico, porque é uma discussão muito longa no mundo da história das religiões, mas esse grupo ficou conhecido no mundo acadêmico como gnósticos. E esses gnósticos afirmavam que o mundo tinha sido criado por um Deus mau. Ou um Deus… no mínimo incompetente, maluco, desequilibrado, se não mau mesmo.

Esses cristãos desapareceram, né? Os cátaros  na Idade Média replicavam um pouco esse modelo, mas o cristianismo oficial venceu a versão judaica de que Deus é bom. Apesar de que, às vezes, a gente fica na dúvida, mas né? O estado do mundo é tal, como é que Deus pode ser bom? Na realidade os gnósticos chegavam à conclusão que quem criou o mundo não era bom, justamente pelo estado do mundo.

Então, aí vem a primeira grande intuição do pessimismo, né? E olha, o pessimismo tem, sem dúvida nenhuma, uma prevalência na história do pensamento. Estou usando o termo de forma um pouco solta, mas a gente se entende, assim. Depois eu vou citar uns pouco exemplos. O pessimismo tem prevalência. Às vezes os alunos de graduação perguntam pra mim assim, pra outros colegas: afinal de contas porque vocês professores ficam falando de uns caras que dizem que tudo vai dar errado, que está ruim, que não tá certo, né? Não existiu ninguém na história da filosofia ou do pensamento ocidental que fosse otimista?

Claro que existiu. Platão era um otimista, em grande parte, né? Claro que existiu. Mas, o que a gente percebe, que você tem uma… a filosofia grega ela é… filosofia grega quando eu digo Platão, Aristóteles, Sócrates, eles representam muito uma reação a uma visão de mundo religiosa grega trágica, essa terrivelmente pessimista, o que significa: significa que o homem é um animal que vai ser sacrificado no altar do sacrifício, o destino dele está na mão das moiras, que são meio cegas, os deuses brincam com a gente, ou seja, no mundo trágico, não adianta você esperar nenhum tipo de evolução no sentido de que o mundo foi criado pra que a gente avançasse de alguma forma.

E a filosofia Sócrates, Platão, Aristóteles significa um investimento na ideia de autonomia do ser humano. Sem dúvida. E essa é uma palavra que a gente pode, às vezes, arrolar  no campo  do otimismo: a ideia de autonomia do ser humano. O problema é que à medida que a historia vai avançando, né? Quando a gente chega na modernidade, onde você tem todo um campo de autonomia do ser humano, essa autonomia começa a criar problemas.  Então, a autonomia, pra alguns, não existe, pra outros ela é em si a causa de uma série de problemas e aí, a ideia de autonomia como a capacidade do ser humano,  no sentido clássico, orientar a vontade a partir do intelecto, ou seja, não ter uma vontade maluca, tarada, desequilibrada, essa ideia ela acaba ganhando contorno um tanto sombrio na medida em que a historia ocidental vai avançando, né?

Mas, ainda assim, é razoável dizer que a autonomia… authós, eu mesmo, si mesmo, nomos, regra, norma… então, quer dizer, eu sou eu mesmo o princípio daquilo que normatiza minha vida, daí a ideia de autonomia, né? Em oposição a heteronomia, quando o princípio regulador vem de fora e daí, mais ou menos a ideia de que você não age a partir de si mesmo mas age a partir de um constrangimento exterior, é claro que, na realidade, essas duas coisas se misturam, mas o horizonte grego importante era porque no mundo trágico, o ser humano não tinha autonomia. 

Então, essa é uma marca que eu acho que até hoje, ainda que com certos matizes, a ideia de autonomia é importante. Quando o cristianismo entra em jogo na filosofia, o cristianismo, apesar dele superar o trauma gnóstico, ele vai ser obcecado pela ideia de mau, a ideia de pecado. E aí o cristianismo traz uma dupla face sem entrar no mérito do parentesco dele com outras formas de religião onde essa dupla face aparece de certa forma, mas o cristianismo traz uma dupla face muito importante que é o seguinte: de um lado a ideia de que Deus é bom, Jesus é legal, no final vai dar certo, mas que agora tá ruim e tá ruim, inclusive porque a gente, dentro de nós mesmos, a gente está mal. A gente é egoísta, é vaidoso, é interesseiro, é invejoso, né? Colérico. E orgulhoso, quer dizer, o cristianismo,  em termos de análise antropológica, ele é marcadamente pessimista no sentido de que o ser humano, em alguns momentos, em autores como Agostinho, por exemplo, na passagem do século IV pro V, você tem um nível de pessimismo muito radical, quer dizer: olha, observe o comportamento do ser humano, você vai ver que ele é incapaz de escapar do orgulho, escapar da verdade, escapar da inveja, né? Escapar da luxúria, né? Essa ideia de que você joga o objeto de desejo sexual na frente do ser humano e ele sai correndo atrás feito doido e perde o controle de si mesmo. Quer dizer, o cristianismo traz uma marca de pessimismo no que a gente chama de natureza humana.

E aí, a discussão fica…precisa de Deus ajudar, não precisa, a gente consegue sair do buraco sozinho, ou não, os cristãos eles discutem isso desde o começo do cristianismo, ao longo de toda a idade média, chegando ao renascimento. Até o século XVII na França, você tem essa discussão de modo muito acirrado, que é uma discussão que acaba trazendo o horizonte propriamente mais moderno que é o que me interessa aqui, contemporâneo, do tema do otimismo e do pessimismo e dessa tentativa de dizer: afinal de contas, seria o pessimismo mais inteligente?

Você ouviu um trechinho de uma palestra do Luiz Felipe Pondé. Seria o pessimismo mais inteligente? Vamos publicar o link para a palestra completa no roteiro deste programa no Portal Café Brasil. Coloquei esse trecho aqui para enfatizar essa ligação entre o otimismo e a ideia de autonomia, que me é tão cara.

O otimismo não é definido apenas pela expectativa de que as coisas vão melhorar. Nem o pessimismo é apenas a expectativa de que vão piorar. Usamos ambos os termos para descrever a forma como pensamos as causas das adversidades. O pessimismo, por exemplo, faz com que nos sintamos impotentes diante das causas das adversidades.

– Meu, vai dar merda…

Com o pessimismo, atribuímos as adversidades à três forças. A interna, aquela que diz que é tudo minha culpa; a universal, a que diz que isso afeta absolutamente tudo e todos; e a imutável, que diz que não tem como mudar o destino. E aí fica aquela coisa da síndrome de Gabriela, você lembra, hein?

Falhei porque não tenho talento, não tenho jeito, não sou criativo… Eu nasci assim, eu sou sempre assim…

Mas se começarmos a pensar que falhamos porque não estudamos o suficiente, não desenvolvemos nossas habilidades tanto quanto necessário, a coisa muda de figura. Surge a esperança de que podemos sim mudar.

Em minha palestra GERAÇÃO T, logo no final, mostro uma tela onde digo assim, olha: se você por acaso se acha considera estúpido, não perca as esperanças. Você não é estúpido. Você está estúpido. Estar é uma condição e portanto, pode ser mudada.

Há muito tempo somos convencidos, nós, brasileiros, de que somos incapazes. Que precisamos de alguém para nos orientar, disciplinar. Para cuidar de nós. E assim tivemos paizões e mãezonas, que tinham as soluções para tudo. E chegamos onde chegamos. Mas agora despertamos. Nos enchemos do cativeiro. Queremos explorar novas possibilidades. Sair do coitadismo, da revolta sem sentido contra os ricos exploradores, tirar a mente para fora do cenário de confronto, de vingança , no qual fomos jogados. Mas a turma dos histéricos se nega a permitir que tentemos uma nova solução. Que comecemos a tomar as rédeas em nossas mãos.

Ferreira Gullar uma vez disse que “Você tem de ter uma visão crítica das coisas, não pode ficar eternamente se deixando levar por revolta, por ressentimentos. A melhor coisa para o inimigo é o outro perder a cabeça. Lutar contra quem está lúcido é mais difícil do que lutar contra um desvairado.”

É isso. Piotto e o Gullar tratam do mesmo tema: estamos recuperando a lucidez. Percebemos as mentiras, os engodos, as manipulações. E só isso já nos dá uma centelha de esperança. Uma razão para o otimismo.

Não, não é para mergulhar no otimismo cego, que é tão burro e talvez até mais prejudicial que o pessimismo cego. É para perceber quais causas dos eventos negativos estão sob nosso controle. Sobre quais delas podemos influir?

Já fizemos isso com voto. Já fizemos isso com pressão popular. Já fizemos isso boicotando o que não nos serve. Agora é seguir adiante. Como diz o Piotto, não é mais hora do “Fora, fulano”, meramente ideológico ou amargurado, magoado, perdedor.

É hora de discutir a ideia de autonomia

Vamos nessa?

Um dia eu vou estar à tôa
E você vai estar na mira
Eu sei que você sabe
Que eu sei que você sabe
Que é difícil de dizer…

O meu coração é um
Músculo involuntário
E ele pulsa por você
Um dia eu vou estar contigo
E você vai estar na minha…

Uau! Negra Li com Você vai estar na minha, que mistura rap com hip hop e funk e aproveita um trecho de Na mira, de Marisa Monte, que a gente segue para o final deste programa, assim no embalo…

Pra terminar, uma frase de Johann Goethe:

Só é digno da liberdade, como da vida, aquele que se empenha em conquistá-la.

Fonte: Podcast Café Brasil 

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