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6 questões para entender por que as bolsas em todo o mundo estão caindo e até onde esse movimento vai

O mercado acionário dos Estados Unidos sofreu sua pior queda em mais de seis anos, na segunda-feira, frente ao temor de que as taxas de juros americanas - que já tinham previsão de alta - subam agora muito além do esperado.

As turbulências têm respingado em bolsas de valores em vários países, inclusive no Brasil, onde o Ibovespa, principal índice de ações da Bolsa de São Paulo, fechou a semana passada em queda e iniciou os negócios nesta terça-feira ainda em declínio.

Analistas estimam que, de forma geral, as perdas devem continuar nos próximos dias.

Mas qual foi o gatilho para esse movimento e qual será o impacto dele? A BBC Brasil reuniu seis pontos-chaves para explicar:

Imagem mostra cédula de 1 dólar
Investidores temem que políticas do governo Trump provoquem alta na inflação e nos juros, tornando o investimento em ações menos atrativo

1. Ameaça de inflação

As turbulências no mercado de ações americano começaram sexta-feira, quando o Departamento de Trabalho dos EUA divulgou que o aumento dos salários foi mais robusto do que o esperado.

Mesmo sendo uma boa notícia estar próximo a um cenário de pleno emprego e elevação salarial, a situação sempre tem dois lados quando se trata de economia.

"A reação do mercado tem sido causada por notícias econômicas positivas, (porém) mais fortes do que o previsto", diz David Kuo, diretor-executivo da consultoria financeira Motley Fool.

Erin Gibbs, gerente de portfólio da S&P Global Market Intelligence, complementa: "Este não é um colapso da economia. A questão é que a economia está realmente se saindo muito melhor que o esperado e, portanto, precisamos reavaliar (as expectativas)".

A lógica que rege o mercado é que, com salários em aceleração, o consumo deve aquecer, levar ao aumento dos preços e, por consequência, dos juros - mecanismo usado pelos bancos centrais para controlar a inflação.

Com juros mais altos, há temores de que as ações se tornem um investimento menos atraente e de que os custos de empréstimos fiquem mais elevados - o que poderia dificultar a vida não só de empresas, mas também do consumidor.

A Casa Branca tentou acalmar os investidores dizendo que estava focada em "fundamentos econômicos de longo prazo, que permanecem excepcionalmente fortes".

Não conseguiu, porém, conter o efeito no mercado.

Os investidores se movimentaram para vender ações e colocar dinheiro em ativos como títulos que se beneficiam de taxas de juros mais altas.

Os mercados previam que o Federal Reserve (Fed, na sigla em inglês), o Banco Central dos Estados Unidos, elevaria as taxas de juros duas ou três vezes neste ano.

Mas, com o forte aumento dos salários, agora temem que isso seja feito várias vezes mais.

Este será um dos desafios para Jerome Powell, o novo presidente do Fed, que estreia em meio à tempestade.

Ele terá que tomar decisões que sustentem o crescimento, mas sem alarmar os investidores. O que será ainda mais difícil, uma vez que diversos analistas têm alertado que a política de estímulos aplicada pelo governo Trump pode resultar em um "superaquecimento" da economia.

Donald Trump
O presidente dos EUA, Donald Trump, tem aprovado restrições às importações para favorecer a produção interna e isso também afeta o mercado de ações

2. Perda de confiança

Ainda é cedo para avaliar se os dois últimos dias no mercado financeiro são o presságio de um grande baque ou apenas um tropeço passageiro.

"O que se mostra evidente é que muita gente perdeu a confiança", diz à BBC Mundo Lawrence Harris, professor de Finanças na Universidade do Sul da Califórnia.

Uma queda na bolsa é reflexo de que há mais oferta do que demanda por ativos. E, quando há mais vendedores do que compradores, o resultado é que os preços caem, como ocorreu na sexta-feira passada e nesta segunda.

E isso pode estar relacionado com algumas das políticas de Trump: o presidente impulsionou uma reforma tributária que reduziu impostos para empresas e muitos trabalhadores, mas a custo de diminuir as receitas públicas e, por consequência, ampliar o rombo nas contas públicas.

"Muitos investidores perceberam que, se os Estados Unidos têm um déficit público de US$ 1 trilhão, isso deve ser pago ou pelo menos financiado", diz Harris.

De acordo com previsões do Gabinete Orçamentário do Congresso, esse deficit aumentará até US$ 1,7 bilhão em 10 anos por causa da reforma.

Essa é uma das razões pelas quais os investidores começam a desconfiar da economia americana.

"Talvez a euforia que alguns sentiram em um primeiro momento com a reforma tributária não fosse justificada", diz Harris.

3. Restrições ao livre comércio

A experiência mostra que os mercados financeiros preferem um ambiente de desregulamentação e facilidades para os negócios.

Os Estados Unidos têm sido historicamente o grande símbolo do livre comércio internacional. Woodrow Wilson, presidente entre 1913 e 1921, fez, aliás, desse tema sua bandeira.

O governo de Donald Trump, pelo contrário, aposta em uma política protecionista para favorecer a produção americana frente à concorrência estrangeira.

Seu governo impôs recentemente fortes taxações à importação de máquinas de lavar roupas e painéis solares.

"O que está acontecendo nos últimos dias está provavelmente relacionado ao fato de os Estados Unidos estarem virando um país cada vez mais anticomercial", afirma Harris. Algo a que os mercados torcem o nariz, uma vez que "quando se restringe o comércio, se restringe o crescimento".

Bolsa de valores de Nova York
A bolsa de Nova York acumula sete anos seguidos de ganhos, um movimento que já estaria chegando ao limite

4. Nada pode subir para sempre

Embora as decisões do governo tenham impacto no comportamento da bolsa, há outras variáveis envolvidas. Algumas tão simples e inevitáveis como a passagem do tempo.

Passado o impacto maior da crise de 2008, Wall Street acumula sete anos consecutivos de bonança.

Mas o período de "vacas gordas" não pode durar para sempre.

"O mercado está em alta há muito tempo e há a sensação de que chegou ao seu limite", aponta Harris.

Ao longo desse período, diz ele, "os mercados têm experimentado uma estabilidade sem precedentes".

"Quando as pessoas não percebem riscos, elas ficam mais predispostas a comprar. Mas agora elas se darão conta de que as coisas são mais arriscadas do que haviam pensado".

Nesse contexto, Harris acredita que, a curto prazo, o preço das ações continuará caindo. Em um panorama com mais incertezas, as grandes corporações e entidades fianceiras que operam no mercado terão menos apetite para assumir riscos.

"As estratégias dos últimos anos haviam se baseado na estabilidade, e agora muitos estão se dando conta de que o mercado não era tão estável como parecia".

Operadores na Bolsa de Nova York
Alguns analistas dizem que não há um colapso no momento, apesar do temor é que se produza um cenário semelhante ao de 2008

5. O quanto se preocupar?

O que aconteceu nos últimos dias não é animador, mas, segundo Heather Long, analista do jornal The Washington Post, "não é hora entrar em pânico".

Observadores não preveem, por ora, um colapso sistêmico como o registrado em 2008.

"O que aconteceu pode ter um impacto na confiança dos investidores, mas é difícil imaginar um cenário como aquele", diz Harris.

O peso do declínio registrado nos últimos dias é reduzido se considerarmos que a Bolsa estava em níveis historicamente altos.

"O valor das ações caiu para o nível em que estava em meados de dezembro e naquele momento todos concordavam que estava muito alto", afirma o especialista.

O que é, então, que as pessoas comuns devem temer?

"Isso não as afetará muito no curto prazo", destaca Harris. Para ele, o momento traz até oportunidades de comprar ações na baixa.

Bolsa de valores de Tokio
Bolsa de valores de Tóquio, no Japão: mercado de ações asiático é um dos que têm sentido o impacto das turbulências nos EUA

6 - Previsão: instabilidade

Analistas dizem que os investidores devem estar preparados para um mercado acionário mais instável nos próximos meses.

E as últimas queda registradas nas cotações acenderam todos os alarmes nos Estados Unidos.

O Dow Jones Industrial, índice baseado na cotação das ações de 30 das maiores e mais importantes empresas do país, foi um desses alarmes.

O índice encerrou o pregão de segunda-feira em 24,345.75 pontos, 4,6% a menos que no dia anterior.

Na sexta-feira, o índice já havia sofrido seu declínio mais acentuado desde junho de 2016, em meio a perdas mais amplas nos mercados dos EUA.

A queda veio depois de uma série de resultados decepcionantes de gigantes como a Apple, somando-se ao susto que investidores levaram com os dados de emprego e a possibilidade de que catapultem as taxas de juros.

Já na segunda-feira, o Dow teve o segundo dia consecutivo no vermelho e a maior queda percentual desde 2011, quando os mercados caíram em consequência da "segunda-feira negra" - o dia em que a agência Standard & Poor's rebaixou a classificação de crédito da economia americana.

Naquele ano, a desconfiança generalizada na viabilidade do euro e temores pela situação delicada da dívida pública na Espanha e na Itália, em pleno colapso da economia grega, provocaram fortes quedas nos mercados de ações.

Mas muito pior foi o que ocorreu em 2008, quando a crise financeira originada nos Estados Unidos, com o colapso do setor de hipotecas subprime, deflagrou um terremoto econômico global que deixou milhões de pessoas desempregadas em todo o mundo.

O caso atual - ainda que provoque grande inquietação - não tem, porém, tal gravidade, segundo especialistas.

Joel Prakken, economista do IHS Markit, prevê que os ganhos de preços das ações serão limitados nos próximos dois anos.

Mas acrescenta que os mercados precisariam se deteriorar de forma mais significativa para suscitar preocupações com a saúde da economia em geral.

Fonte: BBC

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